
Sou o pó
E vou no vento
Através de rios
E montes
Vou no vento
E talvez eu pouse
Talvez encontre
O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento
António Ramos Rosa
Imagem: Zab


Sou o pó
E vou no vento
Através de rios
E montes
Vou no vento
E talvez eu pouse
Talvez encontre
O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento
António Ramos Rosa
Imagem: Zab


Temos a mesma pele,
descobri anos depois.
É isso que nos impele
a sermos um, sendo dois.
Amar é ter a mesma pele,
o resto vem depois.
(E não falo da cor,
que é indiferente no amor).
Torquato da Luz
Imagem: Laurence Dreano


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.
António Ramos Rosa
Imagem: Laurence Dreano


Fique em sossego o cálice vermelho
da impetuosa flor chamada instinto.
Quero o teu coração para meu espelho,
pois no teu coração não me desminto.
David Mourão Ferreira
Imagem: Raymond Poulet


Este é o poema do amor.
O poema que o poeta propositadamente escreveu
só para falar de amor,
de amor,
de amor,
de amor,
para repetir muitas vezes amor,
amor,
amor,
amor.
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico
contar as palavras que o poeta escreveu,
tantos que,
tantos se,
tantos lhe,
tantos tu,
tantos ela,
tantos eu,
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu
foi amor,
amor,
amor.
Este é o poema do amor.
António Gedeão
Imagem: Rick Clement

“Step one you say we need to talk
He walks you say sit down it’s just a talk
He smiles politely back at you
You stare politely right on through
Some sort of window to your right
As he goes left and you stay right
Between the lines of fear and blame
And you begin to wonder why you came…”
The Fray, How to save a life


Ah, esse teu perfume que me deixa
saudade e desperta doce lembrança,
ainda está em minhas mãos…
*
Ah, esse teu olhar que minh’alma invade
e me desnuda a ser em louco desejo,
e desperta doce lembrança,
ainda está em meu olhar…
*
Ah, esse teu corpo que se entrega
e se perde na carícia, no beijo,
e que recebe meu corpo quase cego,
e desperta doce lembrança,
ainda sinto ao meu lado…
*
Ah, esse amor que me consome,
maltrata sufoca e conforta,
é alimento, é vida, sabor de pecado…
faz renascer minh’alma quase morta…
*
Ah, essa saudade que sinto a
todo instante…
e desperta doce lembrança,
a certeza de que vivo,
de que amo… e sou amante…
Carlos Saad
Imagem: Jean Moulin


Apesar de tudo há um caso de amor
entre mim e a vida.
António de Lacerda
Imagem: Lise Carlston


Quando estás vestida,
Ninguém imagina
Os mundos que escondes
Sob as tuas roupas.
(Assim, quando é dia,
Não temos noção
Dos astros que luzem
No profundo céu.
Mas a noite é nua,
E, nua na noite,
Palpitam teus mundos
E os mundos da noite.
Brilham teus joelhos,
Brilha o teu umbigo,
Brilha toda a tua
Lira abdominal.
Teus exíguos
- Como na rijeza
Do tronco robusto
Dois frutos pequenos –
Brilham.) Ah, teus seios!
Teus duros mamilos!
Teu dorso! Teus flancos!
Ah, tuas espáduas!
Se nua, teus olhos
Ficam nus também:
Teu olhar, mais longe,
Mais lento, mais líquido.
Então, dentro deles,
Bóio, nado, salto
Baixo num mergulho
Perpendicular.
Baixo até o mais fundo
De teu ser, lá onde
Me sorri tu’alma
Nua, nua, nua…
Manuel Bandeira
Imagem: Rodica Toth Poiata

“I used to rule the world
Seas would rise when I gave the word
Now in the morning I sleep alone
Sweep the streets I used to own…”
Coldplay, Viva la vida