[...] O segredo a descobrir está fechado em nós
O tesouro brilha aqui embala o coração mas
Está escondido nas palavras e nas mãos ardentes
Na doçura de chorar nas carícias quentes [...]
Cantado por Dulce Pontes



O corpo não espera. Não. Por nós
ou pelo amor. Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede, uma memória, tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera; este pousar
que não conhece, nada vê, nem nada
ousa temer no seu temor agudo.
Tem tanta pressa o corpo! E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.
Jorge de Sena
Imagem: Tina Jones


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
Fernando Pessoa
Imagem: Jacques-Louis David

“…She may be the love that cannot hope to last,
May come to me from shadows of the past,
That I remember till the day I die…”
She, Charles Aznavour


Não ouças o que eu digo, não dês voz
às palavras que à noite te murmuro.
São setas de arremesso contra o muro
de silêncio que erguemos entre nós.
*
O que tenho a dizer-te está além
de tudo o que te digo e o que sinto.
Por muito que te minta (e eu não minto)
são coisas que não digo a mais ninguém.
*
Porque sobre as palavras que te digo
voa o pássaro azul dos sentimentos
que não sei transmitir, mas trago dentro
*
de mim quando me encontro a sós contigo
e ignoro as palavras interditas
que diriam o amor com que me fitas.
Torquato da Luz
Imagem: Jackie Ludtke


Vimos chegar as andorinhas
conjugarem-se as estrelas
impacientarem-se os ventos
Agora
esperemos o verão
do teu nascimento tranquilos, preguiçosos
Tão inseparáveis as nossas fomes
Tão emaranhadas as nossas veias
Tão indestrutíveis os nossos sonhos
Espera-te um nome
breve como um beijo
e o reino ilimitado
dos meus braços
Virás
como a luz maior
no solstício de junho.
Rosa Lobato de Faria
Imagem: Beth Budesheim

“I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her.”
Nothing Hill (1999)


Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.
Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!
- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!
Eu estava sonhando…
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
“Neste país é proibido sonhar”.
Carlos Drummond de Andrade
Imagem: Later Cooper


Sei a linguagem dos teus olhos,
aves de poiso vacilante,
sem gavinhas galgando
o muro dos dias.
Tudo é incerto e veloz,
nada garante nada,
mas entretanto esses olhos
iluminam-me a casa.
Torquato da Luz
Imagem: Vassilen Vasevski


Era manhã e anoiteceu,
sem ter havido tarde nem meio-dia,
e tudo em volta envelheceu,
perdendo cor e poesia.
Mas tu chegaste e a tarde aconteceu
e voltei a ser eu.
Torquato da Luz
Imagem: Miguel Camargo