
Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,
para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem
e eu não saiba
e eu não sinta.
Albano Martins
Imagem: Antonia Ferrer Campos


Um dia virei
colado a um verso, embrulhado
numa folha, dobrado
a um canto,
para que os teus lábios
me ciciem, os teus olhos
me beijem
e eu não saiba
e eu não sinta.
Albano Martins
Imagem: Antonia Ferrer Campos


Tu choravas e eu ia apagando
com os meus beijos os rastos das tuas lágrimas
- riscos na areia mole e quente do teu rosto.
Choravas como quem se procura.
E eu descobria mundos, inventava nomes,
enquanto ia espremendo com as mãos
o meu sangue todo no teu sangue.
Não sei se o mundo existia e nós
existiamos realmente.
Sei que tudo estava suspenso,
esperando não sei que grave acontecimento,
e que milhares de insectos paravam e
zumbiam nos meus sentidos.
Só a minha boca era uma abelha inquieta
percorrendo e picando o teu corpo de beijos.
Depois só dei pela manhã,
a manhã atrevida,
entrando devagar, muito devagar e
acordando-me.
Desviei os meus olhos para ti:
ao longo do teu corpo morriam as estrelas.
A noite partira. E, lentamente,
o sol rompeu no céu da tua boca.
Albano Martins
Imagem: Wilfredo Alicdan


Em que idioma te direi
este amor sem nome
que é servo e rei?
Como o direi?
Como o calarei?
É como se a noite se molhasse
repentinamente, quando choras.
É como se o dia se demorasse,
quando te espero e tu te demoras.
Albano Martins
Imagem: Elena Ilku


De ti fiz a harpa e a lira,
a guitarra.
Outra música não sei.
Albano Martins
Imagem: Carlos Alfredo Couto Amaral


Quando a amada oferece
o seu corpo, ela sabe
que dos frutos apenas
se colhe o sabor.
É então
que os dedos
separam as películas,
que a lâmina desce e a água
e o fogo se misturam.
E é então que a vida
e a morte convivem
sob o mesmo tecto.
Albano Martins