Arquivos para a Categoria ‘David Mourão-Ferreira’

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Soneto do amor difícil

Novembro 1, 2009

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

David Mourão-Ferreira

Imagem:  William C. Bryant

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Labirinto ou não foi nada

Julho 31, 2009

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira

Imagem: Finela Moore

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Presídio

Julho 31, 2009

Nem todo o corpo é carne … Não, nem todo,
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco …?

E o ventre, inconsistente como o lodo? …
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo …

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono …
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

David Mourão-Ferreira

Imagem: Finela Moore

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A boca

Junho 22, 2009

Apenas uma boca. A tua boca
Apenas outra, a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca .

David Mourão Ferreira

Imagem: Leslie Marcus

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Espelho

Março 28, 2009

Fique em sossego o cálice vermelho

da impetuosa flor chamada instinto.

Quero o teu coração para meu espelho,

pois no teu coração não me desminto.

David Mourão Ferreira

Imagem: Raymond Poulet

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Um dia

Janeiro 21, 2009

Um dia

sem ouvir a tua voz

é como descobrir

que o mar morreu.

David Mourão-Ferreira

Imagem: Kamra

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Paraíso

Janeiro 13, 2009

Deixa ficar comigo a madrugada,

para que a luz do Sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,

onde eu ouça o estertor de uma gaivota…

Crepite, em derredor, o mar de Agosto…

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho

que acendas, para tudo ser perfeito,

à cabeceira a luz do teu joelho,

entre os lençóis o lume do teu peito…

Podes partir. De nada mais preciso

para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira

Imagem: Vincent Desiderio

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A luz que vibre

Dezembro 28, 2008

A luz que vibre

sobre o teu rosto

O mar que oscile

sob os teus ombros

O que me atinge

vem de mais longe

lá dos confins

em que te sonho

David Mourão-Ferreira

Imagem: Olga Sinclair

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Do meu amor perfeito

Dezembro 20, 2008

Do meu amor perfeito, flor ausente,

não lembro o rosto nem a voz:

lembro a fadiga sorridente

que havia, ao fim, em cada um de nós.

David Mourão-Ferreira

Imagem: Antoine De Villiers

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Nudez

Novembro 19, 2008

A pressa
com que se despe

Nem na alma lhe apetece
qualquer veste

A pressa
com que se despe

Até da carne e da pele
se pudesse.

David Mourão-Ferreira