
Galopam cavalos
por dentro do sangue
Em dunas resvalam
a boca e as mãos
Crispam-se as pálpebras
Os dedos se inflamam
ao mais leve toque
na tua garganta
assim que de costas
te deito na cama
David Mourão-Ferreira
Imagem: Emilia Wólkiewicz


Galopam cavalos
por dentro do sangue
Em dunas resvalam
a boca e as mãos
Crispam-se as pálpebras
Os dedos se inflamam
ao mais leve toque
na tua garganta
assim que de costas
te deito na cama
David Mourão-Ferreira
Imagem: Emilia Wólkiewicz


Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.
Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos a lua
que te fez oscilar.
David Mourão-Ferreira
Imagem: Suzanne Carson


Conjugamos em coro
o verbo amanhecer
com sílabas que roubo
ao que a noite nos dê
David Mourão-Ferreira
Imagem: Claudia Shneider


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira
Imagem: William C. Bryant


Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!
Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.
É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua…
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.
Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.
David Mourão-Ferreira
Imagem: Finela Moore


Nem todo o corpo é carne … Não, nem todo,
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco …?
E o ventre, inconsistente como o lodo? …
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo …
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono …
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!
David Mourão-Ferreira
Imagem: Finela Moore


Apenas uma boca. A tua boca
Apenas outra, a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca
Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.
Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca
Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca .
David Mourão Ferreira
Imagem: Leslie Marcus


Fique em sossego o cálice vermelho
da impetuosa flor chamada instinto.
Quero o teu coração para meu espelho,
pois no teu coração não me desminto.
David Mourão Ferreira
Imagem: Raymond Poulet


Um dia
sem ouvir a tua voz
é como descobrir
que o mar morreu.
David Mourão-Ferreira
Imagem: Kamra


Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.
Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota…
Crepite, em derredor, o mar de Agosto…
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!
Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito…
Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.
David Mourão-Ferreira
Imagem: Vincent Desiderio