Arquivos para a Categoria ‘Eugénio de Andrade’

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Surdo

Junho 17, 2009

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;

amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar

surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

Imagem: Brenda York

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Impetuoso, o teu corpo é como um rio…

Maio 10, 2009

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

Imagem: Kazuya Akimoto

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Foi para ti

Janeiro 18, 2009

Foi para ti que criei as rosas

Foi para ti que lhes dei perfume

Para ti rasguei ribeiros

e dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

Imagem: Misti Pavlov

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Cala-te, a luz arde entre os lábios

Dezembro 31, 2008

Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à lingua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre.

Eugénio de Andrade

Imagem: Rute Santos

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Despe-te

Dezembro 12, 2008

Despe-te

como o orvalho

na concha da manhã.

Eugénio de Andrade

Imagem: Cassandra Gordon-Harris

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O amor

Dezembro 2, 2008

Estou a amar-te como o frio

corta os lábios.

A arrancar-te a raiz

ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,

de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas

a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos

o itinerário da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade

Imagem: Alexander Klevan

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Madrigal

Outubro 23, 2008

Agora

Onde te despes

É Verão:

Tudo colhe

e afaga

O que teu corpo tem

de concha

Molhada

Eugénio de Andrade

Imagem: Linton Meagher, The kiss 31

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Quase nada

Outubro 16, 2008

O amor

é uma ave a tremer

nas mãos de uma criança.

Serve-se de palavras

por ignorar

que as manhãs mais limpas

não têm voz.

Eugénio de Andrade

Imagem: Momar Ndiaye

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Húmido de beijos e da lágrimas

Setembro 4, 2008

Húmido de beijos e de lágrimas,

ardor da terra com sabor a mar,

o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)

Eugénio de Andrade

Imagem: Olga Sinclair, Acuérdate de mi

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Poema para o meu amor doente

Agosto 25, 2008

Hoje roubei todas as rosas dos jardins

e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.

Eugénio de Andrade

Imagem: Paul Klee, Rose Garden