Archive for the ‘Fernando Pessoa’ Category

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Confidência

Novembro 11, 2013

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Fernando Pessoa,
In Poemas de Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso
Arte por Alice Vegrova

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Dá a surpresa de ser

Julho 15, 2012

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louco escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa

Arte por Suhair Sibai

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O amor quando se revela

Julho 20, 2009

O amor, quando se revela,
não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente.
Cala: parece esquecer.

Ah, mas se ela adivinhasse,
se pudesse ouvir o olhar,
e se um olhar lhe bastasse
pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
quem quer dizer quanto sente
fica sem alma nem fala,
fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
o que não lhe ouso contar,
já não terei que falar-lhe
porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa

Imagem: Leonor Fini

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Eros e Psique

Abril 25, 2009

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa

Imagem: Jacques-Louis David

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Poema de amor – Colar de pérolas

Março 5, 2009

Eu tenho um colar de pérolas

Enfiado para te dar:

As pérolas são os meus beijos,

O fio é o meu pesar.

Fernando Pessoa

Imagem: Rossana Petrillo

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Beijo

Março 3, 2009

Um beijo é mais do que um toque dos lábios

é um toque de dois corações,

de duas almas,

de duas parcelas incandescendo do espírito da vida.

Fernando Pessoa

Imagem: Rossana Petrillo

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O amor

Janeiro 6, 2009

O amor é uma companhia.

Já não sei andar só pelos caminhos,

Porque já não posso andar só.

Um pensamento visível faz-me andar mais depressa

E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.

Mesmo a ausência dela é uma cousa que está comigo.

Eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se não a vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.

Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.

Todo eu sou qualquer força que me abandona.

Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Fernando Pessoa

Arte de Abdalieva  Akzhan

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Para ti

Novembro 5, 2008

Fiquei louco, fiquei tonto

meus beijos foram sem conto

apertei-te contra mim

enlacei-te nos meus braços

embriaguei-me de abraços

fiquei louco e foi assim

dá-me beijos, dá-me tantos

que enleado em teus encantos

preso nos abraços teus

eu não sinta a própria vida

nem minha alma, ave perdida

no azul amor dos teus céus

Fernando Pessoa

Arte de autor desconhecido

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Põe a tua mão

Agosto 24, 2008

Põe a tua mão

Sobre o meu cabelo…

Tudo é ilusão.

Sonhar é sabê-lo.

Fernando Pessoa

Imagem: Alexander Klevan

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