Arquivos para a Categoria ‘Joaquim Pessoa’

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Bastava-nos amar

Janeiro 8, 2009

Bastava-nos amar. E não bastava

o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?

O vento como um barco: a navegar.

Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava

o mar a querer doer em cada ideia.

Já não bastava olhar. Urgente: amar.

E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar

pudesse ser amor em maré cheia.

E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.

Bastava, sim, encher o peito de ar.

Fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa

Imagem: Giampaolo Ghisetti’s

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Perfil de primavera

Dezembro 17, 2008

Perfil de primavera

Nas mãos que eu ergo acima desta ausência.

O meu sangue desperta, cria raízes no teu sangue

Nos jardins desertos da nossa solidão.

As minhas mãos, as tuas mãos, os corpos abraçados

E a única cidade construída para o nosso amor:

Nua, inquieta.

Clandestina.

A tua boca no meu peito. Os beijos

Demorados. E todos os silêncios.

As ruas que eu abri no teu olhar

Começam nos meus dedos.

Vem,

Eu amo-te.

Joaquim Pessoa

Imagem: Davinia Hart


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Cada vez

Dezembro 16, 2008

Cada vez nos temos mais apenas

um ao outro.

Joaquim Pessoa

Imagem: Lori Kiergaard

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De esperas construímos o amor…

Outubro 25, 2008

De esperas construímos o amor intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.

Em estranhos desencontros nos amamos.

Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.

Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras

enquanto as gaivotas disputavam sobre a água

talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.

As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias

E por muito tempo permaneciam assim, unidas,

machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.

Depois olhávamo-nos nos olhos.

No mais profundo silêncio.

E, sem palavras,partíamos com as mãos docemente amarradas

e os corações estoirando uma alegria breve

Quando a noite descia apaixonada

Como o longo beijo da nossas despedida.

Joaquim Pessoa

Imagem: Irene Sheri

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Se ao menos soubesses…

Outubro 21, 2008

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

ou se ao menos me desses as mãos como quem beija

e não partisses, assim, empurrando o vento

com o coração aflito, sufocado de segredos;

se ao menos percebesses que eram nossos

todos os bancos de todos os jardins;

se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo

que ambos empunhámos na cidade clandestina

Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores

e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;

se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos

para guardar o teu corpo;

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos

onde o teu rosto se esconde no meu rosto

e a minha boca lembra a tua despedida,

talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer

essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa

Imagem: Gholam Yunessi

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Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Setembro 7, 2008

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente

como se todo o tempo fosse nosso

como se todo o tempo fosse pouco

como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.

Despir as tuas ancas.

Apunhalar de amor o teu ventre.

Joaquim Pessoa

Imagem: Kazuya Akimoto