Arquivos para a Categoria ‘Manuel Bandeira’

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Quando estás vestida

Março 16, 2009

Quando estás vestida,

Ninguém imagina

Os mundos que escondes

Sob as tuas roupas.

(Assim, quando é dia,

Não temos noção

Dos astros que luzem

No profundo céu.

Mas a noite é nua,

E, nua na noite,

Palpitam teus mundos

E os mundos da noite.

Brilham teus joelhos,

Brilha o teu umbigo,

Brilha toda a tua

Lira abdominal.

Teus exíguos

- Como na rijeza

Do tronco robusto

Dois frutos pequenos –

Brilham.) Ah, teus seios!

Teus duros mamilos!

Teu dorso! Teus flancos!

Ah, tuas espáduas!

Se nua, teus olhos

Ficam nus também:

Teu olhar, mais longe,

Mais lento, mais líquido.

Então, dentro deles,

Bóio, nado, salto

Baixo num mergulho

Perpendicular.

Baixo até o mais fundo

De teu ser, lá onde

Me sorri tu’alma

Nua, nua, nua…

Manuel Bandeira

Imagem: Rodica Toth Poiata

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No leito estreito da redondilha

Dezembro 23, 2008

Teu corpo claro e perfeito,

– Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa… flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,

É como um véu de noivado…

Teu corpo é pomo doirado…

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume…

Teu corpo é a brasa do lume…

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes…

É puro como nas fontes

A água clara que serpeja,

Quem em antigas se derrama…

Volúpia da água e da chama…

A todo o momento o vejo…

Teu corpo… a única ilha

No oceano do meu desejo…

Teu corpo é tudo o que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa, flor de laranjeira…

Manuel Bandeira

Imagem: Antoine De Villiers