Arquivos para a Categoria ‘Mia Couto’

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Já não há domingos…

Fevereiro 8, 2010

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto

Imagem: Reve Evasion

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Saudade

Outubro 16, 2009

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

Imagem: Roz McQuillan

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Confidência

Setembro 7, 2009
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto
Imagem: Kahlil Gibran
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Ilha

Março 7, 2009

Tenho a sede das ilhas

e esquece-me ser terra

meu amor, aconchega-me

meu amor, mareja-me

Depois, não

me ensines a estrada.

A intenção da água é o mar

a intenção de mim és tu.

Mia Couto

Imagem: Rodica Toth Poiata


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Desencontro

Janeiro 31, 2009

Não ter morada

Habitar

Como um beijo

Entre os lábios

Fingir-se ausente

E suspirar

(o meu corpo

não se reconhece na espera)

percorrer com um só gesto

o teu corpo

e beber

toda a ternura

para refazer

o rosto

em que desapareces

o abraço

em que desobedeces

Mia Couto

Imagem: Régine Chardon

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Para ti

Dezembro 24, 2008

Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que talhei

o sabor do sempre

Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só

amando de uma só vida

Mia Couto

Imagem: Razvan Popescu

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O Escuro

Setembro 29, 2008

(…) – Dentro de cada um há o seu escuro. e nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?

- Não estou claro, Dona Gata.

- Não é você que mete medo. Somos nós que enchemos o escuro com nossos medos.

Mia Couto, O gato e o escuro

Imagem: Danuta Wojciechowska

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Poema

Setembro 14, 2008

E toco-te

para deixares de ter corpo

e o meu corpo nasce

quando se extingue o teu.

Mia Couto

Imagem: Alexander Klevan

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Pergunta-me

Agosto 19, 2008

Pergunta-me

se ainda és o meu fogo

se acendes ainda

o minuto de cinza

se despertas

a ave magoada

que se queda

na árvore do meu sangue

Pergunta-me

se o vento não traz nada

se o vento tudo arrasta

se na quietude do lago

repousaram a fúria

e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me

se te voltei a encontrar

de todas as vezes que me detive

junto das pontes enevoadas

e se eras tu

quem eu via

na infinita dispersão do meu ser

se eras tu

que reunias pedaços do meu poema

reconstruindo

a folha rasgada

na minha mão descrente

Qualquer coisa

pergunta-me qualquer coisa

uma tolice

um mistério indecifrável

simplesmente

para que eu saiba

que queres ainda saber

para que mesmo sem te responder

saibas o que te quero dizer

Mia Couto

Imagem: Earl Linderman, Beautiful Dreamer

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