Arquivos para a Categoria ‘Nuno Júdice’

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Amanhã

Junho 25, 2010

Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:

assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.

Nuno Júdice

Imagem: JenniferYoswa

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Alegoria floral

Março 8, 2010

Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira
que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem
desça do céu para vestir de névoa os seus
seios de flor: seguirei o caminho da água nos
canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei
pela terra em busca da raíz.

Nesse dia em que os cabelos da mulher se
confundirem com os fios luminosos que o sol
faz passar pela folhagem; e em que um perfume
de pólen se derramar no ar liberto da névoa:
procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre
uma tranparência de ribeiro.

Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.

Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira
com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como
um botão de rosa, esperando que a nuvem desça
do céu para a roubar ao sonho da flor.

Nuno Júdice

Imagem: Enrico Maria Cartei

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Paradoxo Ornitológico

Janeiro 18, 2010

Um dia, um homem transformou-se em pássaro e

voou à volta da mulher que esperava que um

pássaro se transformasse em homem.

Nuno Júdice

Imagem: Wendy Ryan

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Acordo Ortográfico

Janeiro 17, 2010

Gosto do teu rosto exacto,

com o cê bem desenhado,

mesmo quando não se vê,

para te pôr, como laço

nos cabelos, o circunflexo

em que nenhum traço há-de

sair, mesmo que um pacto

roube o pê nessa pose

de pura concepção.

Nuno Júdice

Imagem: Elisa Gulminelli

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Leio o amor

Dezembro 12, 2009

Leio o amor no livro

da tua pele; demoro-me em cada

sílaba, no sulco macio

das vogais, num breve obstáculo

de consoantes,

em que os meus dedos

penetram, até chegarem

ao fundo dos sentidos. Desfolho

as páginas que o teu desejo me abre,

ouvindo o murmúrio de um roçar

de palavras que se

juntam, como corpos, no abraço

de cada frase. E chego ao fim

para voltar ao princípio, decorando

o que já sei, e é sempre novo

quando o leio na tua pele.

Nuno Júdice

Imagem: Isabel Lhano

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Até ao fim

Dezembro 2, 2009

Mas é assim o poema: construído devagar,

palavra a palavra, e mesmo verso a verso,

até ao fim. O que não sei é

como acabá-lo; ou, até, se

o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:

puxo o teu corpo

para o meio dele, deito-o na cama

da estrofe, dispo-o de frases

e de adjectivos até te ver,

tu,

o mais nu dos pronomes. Ficamos

assim. Para trás, palavras e versos,

e tudo o que

não é preciso dizer:

eu e tu, chamando o amor

para que o poema acabe.

Nuno Júdice

Imagem: Giulia Zingali

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Um cair de cabelos

Agosto 30, 2009

Um cair de cabelos nos teus ombros,
um suspiro preso à lembrança que
ficou, um brilho que se demora nos
olhos à janela, um eco que não passa

na memória de um murmúrio, o
abraço em que o tempo se suspende,
a voz que dança por entre ruídos e
silêncio, as mãos que não se libertam

num gesto de despedida, lábios que
outros lábios procuram, uma luz
que alastra na sombra que desce,

e uma sombra que se ilumina quando
a noite já cresce: tu, sonho que
faz real a realidade com que te sonho.

Nuno Júdice

Imagem: Kimberly Brooks

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Sonhei contigo

Junho 18, 2009

Sonhei contigo
embora nenhum sonho possa ter habitantes
tu, a quem chamo amor,
cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção
a esta palavra.

É verdade
o sonho poderá ter feito com que,
nesta rarefacção de ambos,
a tua presença se impusesse
como se cada gesto do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus lábios
com o rebordo desta chávena de café já frio…

Então, bebo-o de um trago.

o mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
-terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência das fontes.

É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda
quando, uma vez mais te chamo.

Nuno Júdice

Imagem: Brenda York

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Soma

Fevereiro 21, 2009

O que o teu amor me dá:

a pérola no centro,

a exacta e pequena pérola

por onde a luz se esvai,

num fechar de olhos,

entre nós.

E o riso tão inesperado

nesse campo de cansaço

em que o repouso

cresce, trazendo a razão

aos braços da loucura.

Os teus olhos onde

os meus mergulham, lago

manso da tarde que

empurramos, à janela,

até o dia inteiro

ser madrugada.

E ver-te acordar, como

o brilho que salta de antigas

colinas e se espalha

por frescos lençóis de

onde te roubo, abrindo

a manhã.

Nuno Júdice

Imagem: Susana Rodrigues Tuegols

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Longe

Fevereiro 5, 2009

Há uma gramática aberta

no teu corpo, e soletro cada palavra

que o teu olhar me oferece.

Limpo as sílabas que te

escorrem pelo rosto com um lenço de

vidro, descobrindo a tua transparência.

E sais de dentro de um pó de

advérbios, para que eu te dê um nome,

e a vida volte a correr por ti.

Nuno Júdice

Imagem: Mary O

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