Archive for Setembro, 2008

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Poema

Setembro 23, 2008

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando –

a delimitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

numcorpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

Arte de  Lena Sotskova


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Os teus olhos

Setembro 22, 2008

Os teus olhos

exigindo

ser bebidos

Os teus ombros

reclamando

nenhum manto

Os teus seios

pressupondo

tantos pomos

O teu ventre

recolhendo

o relâmpago

David Mourão-Ferreira

Arte por Mary Jane Ansell

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Segredo

Setembro 21, 2008

Não contes do meu vestido

que tiro pela cabeça

Nem que corro os cortinados

para uma sombra mais espessa

*

Deixa que feche o anel

em redor do teu pescoço

com as minhas longas pernas

e a sombra do meu poço

*

Não contes do meu novelo

nem da roca de fiar

Nem o que faço com eles

a fim de te ouvir gritar

Maria Teresa Horta, in MINHA SENHORA DE MIM (Publ. D. Quixote, 1971),

in VARIAÇÕES SOBRE UM CORPO (Ed. Inova, 2ª ed, 1973), in POESIA REUNIDA (Publ. D. Quixote, 2009)

Arte  por Elena Ilku

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Quando eu te falei em amor

Setembro 20, 2008

“…Estas linhas que hoje escrevo

São do livro da memória

Do que eu sinto por ti

E tudo o que tu me dás

É parte da história que eu ainda não vivi…”

André Sardet, Quando eu te falei em amor

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Poema de amor

Setembro 19, 2008

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com o receio de que ele não

te coubesse no dedo.

Jorge de Sousa Braga

Arte de Victoria Semykina



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O mundo é grande

Setembro 18, 2008

O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe

na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe

no breve espaço de beijar.

Carlos Drummond de Andrade

Imagem: Elena Ilku

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A um ti que eu inventei

Setembro 17, 2008

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

António Gedeão, in “POESIA COMPLETA” (Ed. João Sá da Costa, 1996)

Arte de Klimt