Archive for Outubro, 2008

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Acho que é isso…

Outubro 31, 2008

tem os que passam

e tudo se passa

com passos já passados

tem os que partem

da pedra ao vidro

e tem, ainda bem,

os que deixam

a vaga impressão

de ter ficado

Alice Ruiz

Arte por  Arunas Rutkus

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I’m yours

Outubro 30, 2008

“…Well open up your mind and see like me

open up your plans and damn you´re free

look into your heart and you´ll find love love love love

listen to the music of the moment people dance and sing

We´re just one big family

And it´s our godforsaken right to be loved loved loved loved loved…”

Jason Mraz

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Príncipe

Outubro 29, 2008


Príncipe:

Era de noite quando eu bati à tua porta

e na escuridão da tua casa tu vieste abrir

e não me conheceste.

Era de noite

são mil e umas

as noites em que bato à tua porta

e tu vens abrir

e não me reconheces

porque eu jamais bato à tua porta.

Contudo

quando eu batia à tua porta

e tu vieste abrir

os teus olhos de repente

viram-me

pela primeira vez

como sempre de cada vez é a primeira

a derradeira

instância do momento de eu surgir

e tu veres-me.

Era de noite quando eu bati à tua porta

e tu vieste abrir

e viste-me

como um náufrago sussurrando qualquer coisa

que ninguém compreendeu.

Mas era de noite

e por isso

tu soubeste que era eu

e vieste abrir-te

na escuridão da tua casa.

Ah era de noite

e de súbito tudo era apenas

lábios pálpebras intumescências

cobrindo o corpo de flutuantes volteios

de palpitações trémulas adejando pelo rosto.

Beijava os teus olhos por dentro

beijava os teus olhos pensados

beijava-te pensando

e estendia a mão sobre o meu pensamento

corria para ti

minha praia jamais alcançada

impossibilidade desejada

de apenas poder pensar-te.

São mil e umas

as noites em que não bato à tua porta

e vens abrir-me

Ana Hatherly

Arte de Konovalovas Evgenijus

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Eva

Outubro 28, 2008

Quando Eva andava nua pelo paraíso,

disfarçava o tédio à sombra das árvores,

colhendo as flores, cheirando o seu perfume,

e pensando como seria bom ter um céu

para espreitar.

Um dia, uma dessas flores transformou-se

em fruto; e Eva levou-o à boca,

trincou-o, provou a sua polpa.

Por um estranho efeito

de causa e consequência, o sabor da maçã

obrigou Eva a cobrir a sua nudez

com folhas e flores, que passaram

a ser uma metáfora do corpo

que escondem.

Então, o pecado tornou-se uma simples

figura de retórica, e o sexo um exercício

de interpretação.

Nuno Júdice

Arte de Pascal Chove

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Tempestades

Outubro 27, 2008

São de nada

tempestades

ante a falta

que me fazes.

David Mourão-Ferreira

Imagem: António Carmo

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You’re gone

Outubro 26, 2008

“…Everybody knows that I don’t wonna grow

Everybody knows that I don’t wonna know

Everybody knows that I don’t wonna grow

Everybody knows that you are gone…”

Fingertips, You’re gone (Everybody knows that)

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De esperas construímos o amor…

Outubro 25, 2008

De esperas construímos o amor intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.

Em estranhos desencontros nos amamos.

Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.

Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras

enquanto as gaivotas disputavam sobre a água

talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.

As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias

E por muito tempo permaneciam assim, unidas,

machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.

Depois olhávamo-nos nos olhos.

No mais profundo silêncio.

E, sem palavras,partíamos com as mãos docemente amarradas

e os corações estoirando uma alegria breve

Quando a noite descia apaixonada

Como o longo beijo da nossas despedida.

Joaquim Pessoa

Arte de WojciechFus

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Madrigal

Outubro 23, 2008

Agora

Onde te despes

É Verão:

Tudo colhe

e afaga

O que teu corpo tem

de concha

Molhada

Eugénio de Andrade

Arte de Lauri Blank

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Melancholic ballad

Outubro 22, 2008

“…Please don’t say that it’s over

Don’t say that it’s over or

I won’t know what to do

Don’t say that you’ll be gone

Or I’ll be done

Or lost myself inside of you…”

Fingertips, Melancholic ballad

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Se ao menos soubesses…

Outubro 21, 2008

Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse

ou se ao menos me desses as mãos como quem beija

e não partisses, assim, empurrando o vento

com o coração aflito, sufocado de segredos;

se ao menos percebesses que eram nossos

todos os bancos de todos os jardins;

se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo

que ambos empunhámos na cidade clandestina

Quando as manhãs cheiravam a óleo e a flores

e o inverno espreitava ainda nas esquinas como uma criança tremendo;

se ao menos tivesses levado as minhas mãos para tocar os teus dedos

para guardar o teu corpo;

se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos

onde o teu rosto se esconde no meu rosto

e a minha boca lembra a tua despedida,

talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer

essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa

Imagem: Gholam Yunessi