Archive for Dezembro, 2008

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Para ti

Dezembro 24, 2008

Foi para ti

que desfolhei a chuva

para ti soltei o perfume da terra

toquei no nada

e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras

e todas me faltaram

no minuto em que talhei

o sabor do sempre

Para ti dei voz

às minhas mãos

abri os gomos do tempo

assaltei o mundo

e pensei que tudo estava em nós

nesse doce engano

de tudo sermos donos

sem nada termos

simplesmente porque era de noite

e não dormíamos

eu descia em teu peito

para me procurar

e antes que a escuridão

nos cingisse a cintura

ficávamos nos olhos

vivendo de um só

amando de uma só vida

Mia Couto

Arte de Charles Dwyer

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No leito estreito da redondilha

Dezembro 23, 2008

Teu corpo claro e perfeito,

– Teu corpo de maravilha,

Quero possuí-lo no leito

Estreito da redondilha…

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa… flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,

É como um véu de noivado…

Teu corpo é pomo doirado…

Rosal queimado do estio,

Desfalecido em perfume…

Teu corpo é a brasa do lume…

Teu corpo é chama e flameja

Como à tarde os horizontes…

É puro como nas fontes

A água clara que serpeja,

Quem em antigas se derrama…

Volúpia da água e da chama…

A todo o momento o vejo…

Teu corpo… a única ilha

No oceano do meu desejo…

Teu corpo é tudo o que brilha,

Teu corpo é tudo o que cheira…

Rosa, flor de laranjeira…

Manuel Bandeira

Arte de Amelia Garrick Grave

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Entre o Sol e a Lua

Dezembro 22, 2008

“…Se hoje te dissesse que o sol brilha só para ti

Que as nuvens partiram e levaram a sombra que nos

tentou afastar.

O dia vai acabar

Vou oferecer-te o luar

Porque o céu não é de ninguém…”

Ricardo Azevedo, Entre o Sol e a Lua

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O sorriso das estrelas

Dezembro 21, 2008

Hoje fui ver o filme O sorriso das estrelas baseado no bestseller “O Diário da nossa paixão” de Nicholas Sparks. Há sempre uma segunda oportunidade devemos aproveitá-la porque ela pode mudar radicalmente as nossas vidas. As “perdas” estão presentes do príncipio ao fim do filme e o quanto é difícil sobreviver depois delas.

Aconselho-te Gato a ires ver o filme e depois, talvez me percebas melhor.

Deixo aqui um excerto do livro:

“Quando durmo, sonho contigo e, quando acordo, desejo ter-te nos meus braços. O tempo que vivemos separados mais não fará do que convencer-me ainda mais, se tal for possível, de que quero passar as noites que me restam ao teu lado e os meus dias contigo no coração (…) Quando estou a escrever-te, sinto o teu hálito, e imagino que sentes o meu quando lês o que escrevo. “

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Voz

Dezembro 21, 2008

Da tua voz

o corpo

o tempo já vencido

os dedos que me

vogam

nos cabelos

e os lábios que me

roçam pela boca

nesta mansa tontura

em nunca tê-los…

Meu amor

que quartos na memória

não ocupamos nós

se não partimos…

Mas porque assim te invento

e já te troco as horas

vou passando dos teus braços

que não sei

para o vácuo em que me deixas

se demoras

nesta mansa certeza que não vens.

Maria Teresa Horta

Arte por Alfredo Araújo

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Do meu amor perfeito

Dezembro 20, 2008

Do meu amor perfeito, flor ausente,

não lembro o rosto nem a voz:

lembro a fadiga sorridente

que havia, ao fim, em cada um de nós.

David Mourão-Ferreira

Arte de Vassia Alaykova

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No meu sono

Dezembro 19, 2008

No meu sono

ela flutua

a cada passo…

Nua

riscando o espaço

numa névoa de outono…

Apenas nos cabelos

um azulado laço…

E assim enlaço

a imagem sua…

Saúl Dias

Arte de Verónica Fonzo