Archive for Janeiro, 2009

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Desencontro 1

Janeiro 31, 2009

Não ter morada

Habitar

Como um beijo

Entre os lábios

Fingir-se ausente

E suspirar

(o meu corpo

não se reconhece na espera)

percorrer com um só gesto

o teu corpo

e beber

toda a ternura

para refazer

o rosto

em que desapareces

o abraço

em que desobedeces

Mia Couto,  in RAIZ DE ORVALHO E OUTROS POEMAS (Caminho, 2009)

Arte por Régine Chardon

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Olho a sua boca

Janeiro 30, 2009

Olho a sua boca.

Tanto que vem o punhal da luz

levar-me os olhos.

O carvão, a cinza dos

meus olhos.Os seus.

A sua boca,o sulco

onde me pergunta e eu

respondo. A morrer,

a olhar anavalhado

o seu brilho bravio.

Sons de sirenes, uivos,

estrondos, desabamentos,

ravinas donde rompe

o amor. A sua boca.

Joaquim Manuel Magalhães

Arte por Maria Cristina Baracchi

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The man who can’t be moved

Janeiro 27, 2009

“Going back to the corner where I first saw you,

Gonna camp in my sleeping bag I’m not gonna move,

Got some words on cardboard got your picture in my hand…”

The Script, The man who can’t be moved

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Se eu fosse

Janeiro 26, 2009

Se eu fosse um descascador de canela

deitar-me-ia na tua cama

e deixaria o pó amarelo da casca

na tua almofada.

Os teus seios e os teus ombros cheirariam a canela

nunca mais poderias passar no mercado

sem a profissão dos meus dedos

flutuando por cima de ti. O cego tropeçaria

certo de quem se aproximava

mesmo que tomasses banho

na chuva das calhas, na monção.

Aqui no cimo da coxa

neste macio pasto

vizinho do teu cabelo

ou do sulco

que te divide as costas. Este tornozelo.

Serás conhecida entre os estranhos

como a mulher do descascador de canela.

Só a custo te podia ver

antes do casamento

nunca te toquei

– a tua mãe nariguda, os teus irmãos tão brutos.

Enterrei as minhas mãos

em açafrão, disfarcei-as com

alcatrão de tabaco

ajudei os apicultores a colher o mel…

Uma vez que estávamos a nadar

toquei-te na água

e os nossos corpos permaneceram livres,

podias segurar-me e ser cega de cheiro

Saltaste a margem e disseste

isto é como tu tocas as outras mulheres

a mulher do cortador de relva, a filha do queimador de limão

E procuraste nas tuas mãos

o perfume desaparecido

e soubeste

como é bom

ser a filha do queimador de lima

deixada sem marca

como se lhe tivessem falado no acto do amor

como se ferida sem o prazer de uma cicatriz

Roçaste o teu ventre nas minhas mãos

no ar seco e disseste

sou a mulher do descascador

de canela.

Cheira-me.

Michael Ondaatje

Arte de  Angela Felipe

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Ouve, meu anjo…

Janeiro 25, 2009

Ouve, meu anjo:

Se eu beijasse a tua pele?

Se eu beijasse a tua boca

Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se

Num sorriso desdenhoso;

Mas aí!, A carne do assassino

É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,

Misterioso, gentil,

Deu-me o seu corpo doirado

Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,

A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando

Os olhos para sonhar –

E eu lentamente morria

Como um perfume no ar!

António Botto

Imagem: Helena Abreu

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Conta-me

Janeiro 24, 2009

Conta-me

Do teu vestido verde

Seda pura

Corte liso

Conta-me

Do que é preciso

Para que vistas luar

E sombra

Pele e luz

Edgardo Xavier

Imagem: Tamara de Lempicka

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Se fosses

Janeiro 23, 2009

Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo: – a luz do dia!

– Bendito seja o teu sorriso

Que desata a inspiração

Da minha fantasia!

Se fosses flor serias o perfume

Concentrado e divino que perturba

O sentir de quem nasce para amar!

– Se desejo o teu corpo é porque tenho

Dentro de mim

A sede e a vibração de te beijar!

Se fosses água – música da terra,

Serias água pura e sempre calma!

– Mas de tudo que possas ser na vida,

Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto

Imagem: Alexander Sulimov