Archive for Janeiro, 2009

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Esta noite

Janeiro 19, 2009

Esta noite morri muitas vezes, à espera

de um sonho que viesse de repente

e às escuras dançasse com a minha alma

enquanto fosses tu a conduzir

o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,

toda a espiral de horas que se erguessem

no poço dos sentidos. Quem és tu,

promessa imaginária que me ensina

a decifrar as intenções do vento,

a música da chuva nas janelas

sob o frio de fevereiro? O amor

ofereceu-me o teu rosto absoluto,

projectou os teus olhos no meu céu

e segreda-me agora uma palavra:

o teu nome – essa última fala da última

estrela quase a morrer

pouco a pouco embebida no meu próprio sangue

e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral

Arte de Claude Theberg

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Foi para ti

Janeiro 18, 2009

Foi para ti que criei as rosas

Foi para ti que lhes dei perfume

Para ti rasguei ribeiros

e dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

Imagem: Misti Pavlov

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E desde então

Janeiro 17, 2009

E desde então, sou porque tu és

E desde então és

sou e somos…

E por amor

Serei… Serás…Seremos…

Pablo Neruda

Arte de Ron Hicks

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Desejo

Janeiro 16, 2009

Lambe-me

devagar

o céu da boca

como se a voasses

Maria Teresa Horta

Arte por  Paul Van Ginkel

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Emigrante

Janeiro 15, 2009

Não vou negar meu amor

que não te afasto

e evito

nem me vacilo

e resisto

a negar-me ao teu encontro

que construo e que desisto

Meu amigo

e  meu amado

emigrante do que eu sinto

Maria Teresa Horta

Arte por Mark Arian

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Paraíso

Janeiro 13, 2009

Deixa ficar comigo a madrugada,

para que a luz do Sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,

onde eu ouça o estertor de uma gaivota…

Crepite, em derredor, o mar de Agosto…

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho

que acendas, para tudo ser perfeito,

à cabeceira a luz do teu joelho,

entre os lençóis o lume do teu peito…

Podes partir. De nada mais preciso

para a minha ilusão do Paraíso.

David Mourão-Ferreira

Arte de Oleg Sheludyakov

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Amanhecer

Janeiro 12, 2009

“…A vida tem destas voltas estranhas

onde te prende e te emaranhas

faz-te tantas vezes rodar como um pião

e crava as garras no teu coração

mas depois para te consolar

dá-te o céu e as estrelas o calor e o mar

faz-te sonhar e faz-te morrer

mas deixa-te sempre mais uma vez

sarar as feridas e amanhecer…”

Susana Félix, Amanhecer


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Deixa-me amar-te

Janeiro 11, 2009

 

Deixa-me amar-te em meus silêncios

Na calmaria do teu coração que me acolhe

E de onde se desprendem meus sonhos

Em vôos etéreos de plena liberdade

Deixa-me amar-te em minha solidão

Ainda que meus labirintos te confundam

E que teus fios generosos de compreensão

Emaranhem-se no tapete dos meus enigmas

Deixa-me amar-te sem qualquer explicação

Na ternura das tuas mãos que me sorriem

Escrevendo desejos em versos despidos

Na minha alva tez que te cobre e descobre

Deixa-me amar-te em meus segredos

Para que desvendes o que também desconheço

A alma dos meus abismos onde anoiteço

E meus olhos adormecem embalados pelo mistério

Deixa-me amar-te em tuas demoras, longas horas

Em que meu corpo se veste de céu à tua espera

E minhas mãos em frenesim acendem estrelas

Para alumiar-te, ainda que ausente estejas…

Fernanda Guimarães

Arte de  Erin Cone

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Bastava-nos amar

Janeiro 8, 2009

Bastava-nos amar. E não bastava

o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?

O vento como um barco: a navegar.

Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava

o mar a querer doer em cada ideia.

Já não bastava olhar. Urgente: amar.

E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar

pudesse ser amor em maré cheia.

E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.

Bastava, sim, encher o peito de ar.

Fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa

Arte de A. Sigov

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Eu vou tirar do dicionário

Janeiro 7, 2009

Eu vou tirar do dicionário

A palavra você

Vou troca-lá em miúdos

Mudar meu vocabulário

e no seu lugar

vou colocar outro absurdo

Eu vou tirar suas impressões digitais

da minha pele

Tirar seu cheiro

dos meus lençóis

O seu rosto do meu gosto

Eu vou tirar você de letra

nem que tenha que inventar

outra gramática

Eu vou tirar você de mim

Assim que descobrir

com quantos “nãos” se faz um sim

Eu vou tirar o sentimento

do meu pensamento

sua imagem e semelhança

Vou parar o movimento

a qualquer momento

Procurar outra lembrança

Eu vou tirar, vou limar de vez sua voz

dos meus ouvidos

Eu vou tirar você e eu de nós

o dito pelo não tido

Eu vou tirar você de letra

nem que tenha que inventar

outra gramática

Eu vou tirar você de mim

Assim que descobrir

om quantos “nãos” se faz um sim

Alice Ruiz

Imagem: Gary Kaemmer