Archive for Junho, 2009

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My immortal

Junho 23, 2009

“…I’ve tried so hard to tell myself that you’re gone

But though you’re still with me

I’ve been alone all along…”

Evanescence, My immortal

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A boca

Junho 22, 2009

Apenas uma boca. A tua boca
Apenas outra, a outra tua boca
É Primavera e ri a tua boca
De ser Agosto já na outra boca

Entre uma e outra voga a minha boca
E pouco a pouco a polpa de uma boca
Inda há pouco na popa em minha boca
É já na proa a polpa de outra boca.

Sabe a laranja a casca de uma boca
Sabe a morango a noz da outra boca
Mas sabe entretanto a minha boca

Que apenas vai sentindo em sua boca
Mais rouca do que a boca a minha boca
Mais louca do que a boca a tua boca .

David Mourão Ferreira

Imagem: Leslie Marcus

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Sonhei contigo

Junho 18, 2009

Sonhei contigo
embora nenhum sonho possa ter habitantes
tu, a quem chamo amor,
cada ano pudesse trazer um pouco mais de convicção
a esta palavra.

É verdade
o sonho poderá ter feito com que,
nesta rarefacção de ambos,
a tua presença se impusesse
como se cada gesto do poema te restituisse um corpo
que sinto ao dizer o teu nome,
confundindo os teus lábios
com o rebordo desta chávena de café já frio…

Então, bebo-o de um trago.

o mesmo se pode fazer ao amor,
quando entre mim e ti
se instalou todo este espaço
-terra, água, nuvens, rios e o lago obscuro do tempo
que o inverno rouba à transparência das fontes.

É isto, porém, que faz com que a solidão
não seja mais do que um lugar comum
saber que existes, aí, e estar contigo
mesmo que só o silêncio me responda
quando, uma vez mais te chamo.

Nuno Júdice

Imagem: Abhijit Bhattacharya

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Surdo

Junho 17, 2009

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;

amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar

surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

Imagem: Brenda York

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Arte de amar

Junho 14, 2009

Metidos nesta pele que nos refuta,

Dois somos, o mesmo que inimigos.

Grande coisa, afinal, é o suor

(Assim já o diziam os antigos):

Sem ele, a vida não seria luta,

Nem o amor amor.

José Saramago

Arte de Cviatko Kinchev

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Lição de vôo

Junho 13, 2009

Foi tão fácil

Deixar-me perder

Sem sinais

No teu céu

Pois eu já não encontro

O caminho

Refrão:

Eu não sei mais

Como hei-de voar

Esquecer

Livrar o pensar

Se és tão frágil

Neste mundo

(bis)

Continuo a deixar-me perder

Sem sinais

No teu céu

Pois eu já não encontro

O caminho

(refrão)

Cazino, Lição de vôo

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Mudez

Junho 9, 2009

Quando por fim voltares, traz no olhar
a nesga de areal onde algum dia
te encontrei entre a espuma e a maresia,
passeando a surpresa de haver mar.

Traz também nos cabelos o luar
e deixa que o veneno da poesia
nos envenene aos dois em sintonia,
como exige o mistério do lugar.

Talvez assim eu possa finalmente
segredar-te as palavras que não soube
dizer-te no momento em que te vi

pela primeira vez e, de repente,
o mundo foi tão grande que não coube
na minha voz e logo emudeci.

Torquato da Luz

Imagem: Leah West