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Confidência

Setembro 7, 2009
Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com suavidade
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça
Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto
Imagem: Kahlil Gibran
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2 comentários

  1. Eis a arte de poetizar numa densidade e beleza, tal qual as savanas da África. É como se não fosse crível que de lugares tão miseráveis, alguém fosse capaz de criar o belo.

    Beijos,
    Inês


  2. ….por tudo isso e muito mar vai-se sentir /reencontrar o mistério a surpresa e toda a magia desses olhares …..



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