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Saudade

Outubro 16, 2009

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono

Mia Couto

Imagem: Roz McQuillan

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2 comentários

  1. O apelo do mar que nos leva as mensagens ,bem como devaneios no seu ondear e que sabem a sonhos por acordar e a guerreiros a deslizar e a marear …..a sua imagem de eternas viagens e infinitos desejos fazem viver não num passado mas num permanente presente imaginado e construido ao sabor do sal que tempera a vida de um sonhador navegador …..


  2. Olá, Gato Pingado!

    Belísimo poema!

    Mia Couto é tudo de bom que há!

    Quanta poesia, quanto sentimento!

    beijoca,

    neli



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