Archive for Janeiro, 2010

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Quantas vezes

Janeiro 26, 2010

Quantas vezes te esperei neste lugar
quantas vezes pensei que não chegavas
quantas vezes senti a rebentar
o coração se ao longe te avistava.

Quantas vezes depois de teres chegado
nos colámos no beijo que tardava
quantas vezes trementes e calados
nos entregámos logo sem palavras.

Quantas vezes te quis e te inventei
quantas vezes morri e já não sei.

Torquato da Luz

Imagem: Lisa G.

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Janeiro 20, 2010

Nas estantes os livros ficam

(até se dispersarem ou desfazerem)

enquanto tudo passa.

O pó acumula-se e depois de limpo

torna a acumular-se no cimo das lombadas.

Quando a cidade está suja (obras, carros, poeiras)

o pó é mais negro e por vezes espesso.

Os livros ficam, valem mais que tudo,

mas apesar do amor

(amor das coisas mudas que sussurram)

e do cuidado doméstico fica sempre, em baixo,

do lado oposto à lombada,

uma pequena marca negra do pó nas páginas.

A marca faz parte dos livros.

Estão marcados.

Nós também.

Pedro Mexia

Imagem: Vladimir Kush

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Em silêncio

Janeiro 19, 2010

Talvez assim eu possa finalmente

Segredar-te as palavras que não soube

Dizer-te no momento em que te vi

Pela primeira vez e, de repente

O mundo foi tão grande que não coube

Na minha voz e logo emudeci

Torquato da Luz

Imagem: Ania Stanczyk

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Paradoxo Ornitológico

Janeiro 18, 2010

Um dia, um homem transformou-se em pássaro e

voou à volta da mulher que esperava que um

pássaro se transformasse em homem.

Nuno Júdice

Imagem: Wendy Ryan

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Acordo Ortográfico

Janeiro 17, 2010

Gosto do teu rosto exacto,

com o cê bem desenhado,

mesmo quando não se vê,

para te pôr, como laço

nos cabelos, o circunflexo

em que nenhum traço há-de

sair, mesmo que um pacto

roube o pê nessa pose

de pura concepção.

Nuno Júdice

Imagem: Elisa Gulminelli