Archive for Julho, 2012

h1

Espero-te

Julho 30, 2012

Amo-te em cada beijo que não te dou,

em cada olhar que perco por sobre as nuvens,

e em cada verso que me escapa por entre os dedos

Amo-te nos gritos do meu silêncio,

nas noites que não têm fim,

e em cada lágrima que teima em não cair

Amo-te nas lembranças que já nem me lembro,

nas cinzas de todas as horas,

e nas dores que irei sentir

Amo-te assim feito um louco,

e feito louco,

busco-te ferozmente em cada palavra,

em cada objeto,

em cada mísero grão de tempo

Amo-te, e por amar-te tanto,

espero-te,

ainda que nunca me ouças chamar,

e ainda que nunca tenhas partido.

Marcelo Roque

Arte de Jono Kunicko

h1

Quando voltares, põe na tua voz

Julho 27, 2012

Quando voltares, põe na tua voz

aquela flor azul que te ofereci.

Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te

e os olhos se encham, outra vez.

*

Ainda tens no gesto aquele susto

que se enrolava todo nos meus dedos

e punha à nossa volta

um colar de silêncio ardendo.

*

Tudo mudou, bem sei. Naquela tília

o outono já começou;

e nas tuas palavras

algumas folhas devem ter caído.

*

Mas, se voltares, põe a flor azul,

põe o passado no gesto e na voz.

Talvez assim eu julgue reencontrar-te

e os olhos se encham. É tão fácil!

António Cabral

Arte de Iwona Zawadzka

h1

Anda comigo ver os aviões

Julho 26, 2012

Anda comigo ver os aviões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu.

Anda comigo ao porto de leixões ver os navios
A levantar ferro
A rasgar o mar.

Um dia eu ganho a lotaria
Ou faço uma magia
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti.

Anda comigo ver os automóveis à avenida
A rasgar nas curvas
A queimar pneus.

Um dia vamos ver os foguetões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu…

Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti.

E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à lua
Nem que eu roube a lua,
Só para ti.

Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
Mas que eu morra aqui
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
O quanto eu gosto de ti.

E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo à América
Nem que eu leve a América até ti.

Grupo Os Azeitonas

h1

Poema de amor para domingo

Julho 21, 2012

Vivo-te inteiro no horizonte da madrugada. Desejava
sentir-te mergulhar neste ribeiro morno, peixe de
braços onde o frio não se detém.

Lília Tavares, in Parto com os ventos (Kreamus, 2013)
Arte por Willem Haenraets 

h1

Tua ausência

Julho 20, 2012

Tua ausência cala o mundo,

o mar, os ventos.

Tua ausência desaba

silenciosamente

sobre os meus dias, soterrando

meu outono…

ela magoa demais o meu sossego.

(Tua ausência é essa substância densa)

Tua ausência é tão presente que é pessoa…

E me abraça.

Marla de Queiroz

Imagem: Cassandra Gordon-Harris

h1

Peço-te

Julho 18, 2012

Peço-te que feches a cortina

e à sua sombra já estremeço nua

Vens-me cobrir o frio

com o teu calor

e à nossa roda já tudo flutua.

Maria Teresa Horta

Imagem: Andrey Belle

h1

Sonho

Julho 17, 2012

Não sei se as tuas mãos me tocaram

Tão leves as tuas mãos que nenhuma marca ficou

Tão leves que certamente só me sonharam

Ou as sonhei porque as queria na minha pele

Árida de carícias

Ávida das tuas mãos.

Não sei se foste tu que escreveste com saliva poemas no meu corpo

Poemas rios que me molharam e segredaram

Palavras por ti nunca antes ditas

Não sei se senti rios e pensei poemas

Deserta que estava de palavras e saliva.

Não sei se no meu corpo o teu mora

Tão ténue teu corpo

Tão breve sonhar.

Encandescente

Arte por Lauri Blank

h1

Amor que mata

Julho 16, 2012

Está em mim
O amor que é teu
O amor que me fere…
Tortura-me…
E me deixa frágil
E me faz poeta…

Em silêncio vivo,
Disfarço
Guardo na noite inquieta
Sentimento forte, louco…

E aos poucos
Vou morrendo… e tu nem sabes
Que estou querendo, apenas,
Estar nos teus sonhos noturnos.

António Carlos Menezes

Arte de Andrius Kovelinas

h1

Dá a surpresa de ser

Julho 15, 2012

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louco escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

Fernando Pessoa

Arte por Suhair Sibai

h1

Fatalidade

Julho 13, 2012

Não sei tecer
senão espumas,
nuvens
e brumas.
… Coisas breves,
leves,
que o vento desfaz.

Como prender-te
em teia tão frágil?

Luisa Dacosta

Imagem: Almada Negreiros