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Um rosto

Setembro 23, 2012

Apenas

uma coisa inteiramente transparente:

o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte

nos teus olhos, que pude ver ainda

através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas

da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas

num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,

tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo

se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,

cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-

grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos

por manchas vagas como aparições; e sinto, eu

próprio, que uma parte da minha vida se apaga

com esses restos.

Nuno Júdice

Imagem: Melody Cleary

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