Archive for Fevereiro, 2013

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Há dias em que morro de amor

Fevereiro 20, 2013

Há dias em que morro de amor.

Nos outros, de tão desamado,

morro um pouco mais.

Casimiro de Brito

Imagem: Paul David Bond

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Amo-te porque não me amo inteiramente

Fevereiro 18, 2013

Amo-te porque não me amo

inteiramente. O que me faz falta

é infinito

mas tu és do bem que me falta

o enigma onde se condensam

a terra e o sol o ar as águas

invioladas

e tenho a boca cheia

de música ondulação

do teu silêncio.

Casimiro de Brito

Imagem: Paul David Bond

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Blow up

Fevereiro 16, 2013

Tenho fotografias que provam

que nunca exististe

Pedro Mexia

Imagem: Paul David Bond
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Guardarás numa caixinha

Fevereiro 14, 2013

Guardarás numa caixinha
o que não fiz por ti,
a mão que não chegou à sobrancelha
que nem aflorou,
o beijo repetido nas palavras
sem que o tacto
o multiplicasse qual se desejava.

Nessa caixa de nada não tardará depois
a não estares só tu,
a não estar só eu,
a estarmos só os dois.

Pedro Tamen

Imagem: Paul David Bond

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Carta de condução

Fevereiro 12, 2013

Já tive um carro da cor dos teus olhos. Deixava-o
estacionado à frente de prostíbulos onde alugava
quartos com vista sobre o quintal dos vizinhos,

Esperava por semáforos, sem saber que esperava
apenas por ti. No auto-rádio, a tua voz cantava
fados demasiado velhos até para a minha mãe.

A segunda circular era uma manifestação pacífica
de pára-brisas, as palavras de ordem eram simples
porque ainda não sabia que já me tinhas escolhido.

Quando os outros rapazes folheavam revistas de
carros nas aulas de matemática, eu apenas me
interessava por unicórnios e farmácias abandonadas.

Agora os meus olhos contam quilómetros nos teus,
procuro papéis entre os papéis do guarda-luvas e
tenho tanto medo que me vendas em segunda mão.

José Luís Peixoto

Imagem: Paul David Bond

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Diz-me o teu nome

Fevereiro 10, 2013

Diz-me o teu nome – agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa. Escreve-o na minha mão

com os teus dedos – como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,

como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro – assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o

nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.

Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo – um nome sim.

Maria do Rosário Pedreira

Imagem: A.D.Cook

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O amor é sempre breve

Fevereiro 6, 2013

O amor é sempre breve, mas desenha
na nossa vida um rasto que perdura
para além do novelo da ternura:
o rasto que transporta o santo-e-senha
para as portas fechadas que o destino
depara a cada um desde menino.

Sobre ser breve, o amor é sempre frágil
e raro escuta o ritmo das marés
que nos faz oscilar o dia-a-dia.
Mas é ver como às vezes fica ágil
e corre e salta e foge a sete pés
do que nos tolhe o rosto da alegria.

Torquato da Luz

Imagem: Stephanie Clair