Archive for Junho, 2013

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Quase sempre

Junho 21, 2013

Por vezes a tua voz
E as tuas mãos
Aquecem-me
Acendem-me
Quando me tocam
Quase me despem
Depois basta-me uma só palavra
Um sorriso
Um pequeno gesto
Ou até mesmo
Apenas o silêncio
O estares tão perto
Talvez porque ainda te oiça
Já sem ouvir-te
Talvez porque já te sinta
Sem ainda sentir-te
E então
Durante esse teu oferecer
Por vezes
Anoitece
É quando tudo
O tudo entre nós
Acontece…
Quase sempre.

José Gabriel Duarte

Imagem: Francis Killian

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Amor

Junho 20, 2013

que luz
acendem teus olhos
no profundo e silencioso mar
dos meus olhos

que serenidade vens entregar
à mansidão das minhas águas
que ninguém ousou tocar ou
contemplar

que suavidade
brilho ou lua
me pousa na alma

com tanto amor

António Cardoso Pinto

Arte de Vernor Gallardo

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O nome da entrega

Junho 19, 2013

Alto o lento sabor da boca
No decifrar abstracto do beijo.
Compreender a distância
Entre o querer e ser, moinho de pedra
E trigo na boca faminta.

Desejar a alta claridade da pedra
Do lírio sobre a terra.
Beijar a luz que emana
Sem saber como, nem quando, nem onde,
Mas sim beijar a transparência
No silêncio dos lábios.

Deixar que o corpo se envolva
Pelo chão de toda a planície verde.
Entrar pelo leite das espigas
Nas gotas de um amor ardente.

Lâmina fina, o sol sobre os olhos
A mão nova, que apalpa todos os segredos
Que a luz descobre em todos os recantos
Onde a bruma é mais doce
E mais fresco o sorver da terra.

Alta e branca a claridade do desejo
Basta um fósforo, para incendiar
O ar de teu abstracto nome.
E decifrar no fogo o nome da entrega.

Joaquim Monteiro

Imagem: Ingrid Tusell

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Boca esquiva

Junho 18, 2013

Quero‐te ver numa boca esquiva.
Escuto o vazio do silêncio
em segredo…

Não escrevo porque gosto
de sol.
Escrevo porque amo sentir
o calor dos teus lábios.

Escrevo‐te palavras incertas
com uma certeza determinada.
Nado para fora deste mar…
Preciso de sentir a terra firme.

Cláudio Cordeiro

Imagem: Caroline Westerhout

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Livro aberto

Junho 17, 2013

Quero que tenhas muitas páginas
E versos difíceis de entender
Quero que me digas onde vais
E que nada fique por dizer…

Sei que não há lugares eternos.
Esta cadeira tem horas,
Há ficar e partir…
Há um entardecer
Para os vagares e demoras.
Até pode chover…

Abre e diz-me a teu jeito
Essa página, e outra, e outra,
Mas não, não me toques ainda.

Assim aberto
Fica
Perto
Mas não me toques ainda.

Deixa-me ler até ao fim.
Com os olhos, com o peito
Antes que o vento
Vire a página da decisão.

Quero ser eu
A tocar essas páginas
Que vou ler e anotar.
Mas por agora, quero ler-te
Só ler-te.
Quero amar-te devagar.

Carlos Campos

Imagem: Olga Gouskova

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Como eu queria

Junho 17, 2013

Quero ler-te
Lentamente
Verso a verso
Como se fosses poesia

Quero sentir-te
Lentamente
Gota a gota
Como se fosses maresia

Respirares-me
Boca a boca
Lentamente

Como eu queria.

José Gabriel Duarte

Imagem: Connie Chadwell

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Poema nonagésimo oitavo

Junho 16, 2013

Os sinos da borboleta acordam a primavera

e nos campos molhados movem-se sapos lentamente

com um olhar desajeitado que desafia as horas.

A atarefada cotovia prepara o ninho entre espigas jovens

que endurecem já a sua alegria. O mês do amor

está a chegar, carregando água azul das trovoadas

e um sol comprometido com o verão.

Repara como o silêncio insistiu esta manhã

em deixar que os amantes continuassem a dormir

abraçados, na sua cama de palavras.

Joaquim Pessoa

Imagem: Nicolai Balyshev

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Junho 14, 2013

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Agora eu era linda outra vez

Junho 11, 2013

Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor

Valter Hugo Mãe

Imagem: Olga Gouskova

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Gostava de morar na tua pele

Junho 10, 2013

Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.

Manuel Alegre

Imagem: Olga Gouskova