Archive for Julho, 2013

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Se me esqueceres

Julho 31, 2013

Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.

Pablo Neruda, in “Poemas de Amor de Pablo Neruda”

Imagem: Vladimir Dunjic 

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Acontecimento

Julho 30, 2013

Aí estás tu à esquina das palavras de sempre

amor inventado numa indústria de lábios

que mordem o tempo sempre cá

E o coração acontece-nos

como uma dádiva de folhas nupciais

nos nossos ombros de outono

Caiam agora pálpebras que cerrem

o sacrifício que em nossos gestos há

de sermos diários por fora

Caiam agora que o amor chegou

Ruy Belo, in “Aquele Grande Rio Eufrates”

Imagem: Alena Plihal 

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Fogo e água

Julho 29, 2013

Cansa-me ser quem serei
porque em tudo esse outro
se parece com o que sou.

Cansa-me o adeus de quem nasce.
E a viagem, à nascença, morre de fadiga.

Só a tua lava me lava.
Resto eu em ti
terra ardendo,
chão de água e fogo.

Abraça-me.
Abrasa-me.

Mia Couto,

“Quatro poemas inéditos”, in Jornal de Letras Artes e Ideias, n. 1114

Imagem: Alfonso Cuñado

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Amêndoa amarga

Julho 29, 2013

Este travo inteiro a amêndoa amarga

A ameixa a doce a ferver no tacho

Esse travo na língua a fermentar no corpo

A febre a nascer a crescer debaixo

Em baixo… a saia a subir nas coxas e esse cheiro mais grosso se entreabro

Asa pernas os lábios e o gosto onde o sabor da amêndoa se torna mais amargo

É esse o momento o instante exacto em que tudo se prende ao gesto sem sentido

A calda no ponto deixa a língua em brasa

E eu tiro pela cabeça o meu vestido

Maria Teresa Horta, in DESTINO (Quetzal, 1998), in AS PALAVRAS DO CORPO (D. Quixote, 2012)

Imagem: Autor desconhecido

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Entregámo-nos um ao outro

Julho 28, 2013

Entregámo-nos

um ao outro

dentro dos lençóis

brancos

à tarde

e agora sabemos

e não sabemos

um do outro

escrevemo-nos

escrevemos

Adília Lopes

Arte de Ann Moeller Steverson

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Gosto

Julho 27, 2013

Gosto de passear na tua sombra,
poder te ver, sem tu me veres,
de estar contigo, sem tu saberes,

Gosto de me esconder na tua ausência,
de ser teu sonho, sem me sonhares,
viveres comigo, sem o julgares,

Gosto de me enlear na tua teia,
de ser teu cúmplice, sem que me prendas,
ser teu escravo, sem que me vendas,

Gosto que gostes de ser viagem,
e ao me encontrares,
eu ser paragem…

José Gabriel Duarte,  in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS, (Coisas de Ler Ed., 2012)

Imagem: Janda Zdenek

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Se procuro o teu rosto

Julho 27, 2013

Se procuro o teu rosto
no meio do ruído das vozes
quem procura o teu rosto?

Quem fala obscuramente
em qualquer sítio das minhas palavras
ouvindo-se a si próprio?

Às vezes suspeito que me segues,
que não são meus os passos
atrás de mim.

O que está fora de ti, falando-te?
Este é o teu caminho,
e as minhas palavras os teus passos?

Quem me olha desse lado
e deste lado de mim?
As minhas dúvidas, até elas te pertencem?

Manuel António Pina

Imagem:  Ingrid Tusell