Archive for Julho, 2013

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Podia

Julho 25, 2013

Podia dizer-te que não me importo
Podia fingir que fugi
Ou que estou morto.
Podia adiar para outro dia
Invocar uma qualquer lei
Dizer-te que não sei
Ou fiquei sem bateria.

Com a verdade mais pura
A única verdade
A única que dura
Faria a minha despedida
A promessa de mil abraços
E uma palavra sofrida

Podia dizer-te que volto
E seria breve
Como um poeta escreve
Livre e solto.

(E tu, minha vida, acreditas
Nas palavras que não digo?
Será o silêncio castigo?
Será em silêncio que gritas?)

Podia dizer-te que são pequenas
As saudades do teu sorrir
Mas seriam palavras apenas
E seria mentir.

Carlos Campos, 

in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS, (Coisas de Ler, Ed., 2012)

Imagem: Ira Tsantekidou

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Insónia

Julho 24, 2013

E esta insónia chamada saudade…
Não sei se me encontrarás, se estarei acordado
Ou finalmente dormirei
Talvez, não sei,
Descansado

É a insónia da verdade
(afinal todas as insónias o são)
É um amor que anda perdido
Talvez escondido
Em algum lado

Carlos Campos (a publicar)

Imagem: Peter Harskamp

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Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Julho 24, 2013

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos
pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens…
Há mulheres que são maré em noites de tardes…
e calma

Sophia de Mello Breyner Andresen

Imagem: Paul Milner

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O meu coração é uma folha de papel

Julho 23, 2013

O meu coração é uma folha de papel
com retas e curvas e espirais
de lírios carnais.

Neles repousam os beijos de borboletas
com desejos de asas incansáveis,
sonhos infindáveis.

E entre o traço do voo e o sorriso da flor,
o céu de um peito vibra no ar
do poema amar.

Angela Lopes

Imagem: Ronnie Biccard

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Em linguagem clara o abandono é o amor

Julho 23, 2013

Em linguagem clara o abandono é o amor.
Quando a hora chega e o tempo se consuma
as mãos podem estar tranquilas
que o olhar vê tudo bem e o coração desprende

a nuvem exaltada. Disto muitos querem prova.
Estende-lhes a taça para sua provação
pois só quem faz a prova conhece este sabor.

Abelha no açucar e ave no pomar
som inicial duma canção fraterna
noite que ascende a uma estação mais pura
– ah, como escandaliza aquele que não ama
ver o amor provado do que todo se abandona!

Carlos Poças Falcão

Imagem: Ida Bagus Suardana

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A mulher

Julho 22, 2013

Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

António Ramos Rosa in O VOLANTE VERDE,( Moraes ed., 1986)

Imagem: Montserrat Gudiol 

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De mãos abertas

Julho 21, 2013

Se eu pudesse,

Tocava o teu rosto em silêncio

E falava-te do mar,

Deixava tombar os meus cabelos

Sobre o teu ombro

Como uma bênção

E fechava os olhos

Consciente de ser em ti

Como um salgueiro.

Ana Brilha

Imagem: Montserrat Gudiol

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Adivinhas-me

Julho 20, 2013

Sussurro-te uma frase inacabada
E tu desvendas no meu olhar,
Todo o restante mistério.

Adivinhas-me,
Por entre os dedos que te tocam
E que te escrevem.

E te descrevem…

Adivinhas-me,
Como adivinhas a melodia
Dos fios do meu cabelo,
Soltos numa brisa suave ao teu olhar.

Adivinhas-me,
O arrepio na pele
Quando percorres com as pontas dos dedos,
Os lábios que te beijam em silêncio.

E num sopro de um só sentimento,
Aprendeste a amar(me)
Como ninguém.

Daniela S. Pereira

Imagem: Steven Eserin

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Quero sentar-me no teu colo

Julho 19, 2013

Quero sentar-me no teu colo
e prender-te em meus braços,
beber dos teus lábios a doçura
de um mel que nasce na cor dos

teus olhos e perder-me por lá,
como quem se afunda em desejos
para sempre. Ouvir o teu sangue
gemer e gritar o meu nome – aflito.

Pousas em mim uma ânsia e rendo-me
ao teu corpo, à sede da minha pele – quero
falar-te baixinho e beijar-te segredos.
Não digas nada, a minha alma vestiu-se de ti.

Carla Pais

Imagem:  Alice Vegrova

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11.

Julho 18, 2013

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos e
um telefone se debruça de
uma qualquer janela

sinto que ainda ficou uma
palavra minha esquecida na
tua boca e que
vais voltar
para
a
devolver

Alice Vieira

Imagem: Dorka Simanyl