Archive for Agosto, 2013

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Sem palavras

Agosto 31, 2013

Quando eu tinha o teu amor
Não me sentia à vontade
Para dizer quanto te queria.
Mas não podia supor
Que, por guardar a verdade
Tu julgasses que eu mentia.

Podia continuar mudo
Que as palavras não são tudo
Mais importa o que é vivido,
Mas digo-te cá do fundo
Que ainda dava a volta ao mundo
Na roda do teu vestido.

Quando estiveste ao meu lado,
Faltou-te da minha boca
Uma jura de paixão
E, ao veres-me assim tão calado
Cismaste até ficar louca,
Numa história de traição.

Agora, que já te entendo,
Confesso que me arrependo
Do meu coração tão fraco
E digo sem hesitar:
Gostava mais de cantar
Com as bandas do teu casaco.

Maria do Rosário Pedreira

imagem: Catrin Arno

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Eu te prometo

Agosto 30, 2013

Eu te prometo meu corpo vivo
Eu te prometo minha centelha
minha candura meu paraíso
minha loucura meu mel de abelha
eu te prometo meu corpo vivo

Eu te prometo meu corpo branco
meu corpo brando meu corpo louco
minha inventiva meu grito rouco
tudo o que é muito tudo o que é pouco
meu corpo casto meu corpo santo

Eu te prometo meu corpo lasso
mar de aventura mar de sargaço
vaga de náufrago onda de espanto
orla de espuma do meu cansaço
eu te prometo meu doce pranto

Eu te prometo todo o meu corpo
ardendo eterno na nossa cama
como um abraço como um conforto

P´ra que me lembres além da chama
eu te prometo meu corpo morto

Rosa Lobato de Faria,

A NOITE INTEIRA JÁ NÃO CHEGA (Poesia 1983-2010), [Babel Ed., 2013]

Imagem: Michal Lukasiewicz

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Depois de ti

Agosto 30, 2013

Depois de ti não há mais palavras.
O tempo é ladrão que tudo rouba
sem que em troca nos dê o deus do esquecimento.

Depois de ti não ficaram terras por cultivar
onde eu pudesse ao amanhecer
vir espreitar as papoilas rubras.
Não ficaram mais mistérios por desvendar
porque já me tinhas navegado até ao último horizonte.

Depois de ti a noite já não tem pecados
nem sonhos, nem estrelas a chamarem por mim.
Não conheço mais fogos esventrando as madrugadas
nem as sinfonias me acordam de noite
desejosas que se escreva um novo andamento.

Depois de ti nada em mim é sobressalto.
Nem as sombras da pele
nem as comissuras dos lábios
nem o reflexo dos olhos.
Nada se atreve a existir.
Alimento-me das memórias
e minto-te e minto-me porque o pensamento é matreiro
e cerca de ciladas o coração.

Nada sei do fingimento do poeta
apenas do que restou depois de ti.

Margarida Piloto Garcia (a publicar)

Imagem: Maria Mamczur

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Há tardes assim

Agosto 29, 2013

Há tardes assim. Uma ou outra tarde em que
a brisa se solta das teias do tempo e flui serena
nas margens de um rio como quem caminha
devagar. Muito devagar, ao encontro do aconchego

de uns braços – os teus. Um calor que nasce na tua
pele e se propaga nessa brisa como uma folha
que dança nas costas de um vento brando e pousa
depois no leito doce de um açude, que a beija

e acolhe como uma ninfa. Quero ser folha e dançar
no teu peito, ser a brisa solta que te enlaça e sentir
os teus lábios desenharem as linhas do meu corpo – tal
e qual os flancos beijados por um sal doce além-mar.

Carla Pais

Imagem: Rafael Sottolichio

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No veludo dos teus olhos

Agosto 29, 2013

Sonhadora
De pensamentos ao largo
de olhos postos no vento
com o areal nos dedos
e o coração ao leme
deste momento

Sei-te em mim
No turbilhão
Que me aquece o sangue
Me acalma a mente
Me deixa exangue

E abandonada em mim
entrego-me-Te
Às palavras
Onde em cofre guardadas
Serão alma iluminada
Sentimentos

Só te peço…
Guarda-me-te
Deita fora a chave
Esquece os códigos
Que eu saberei lê-los
No veludo dos teus olhos…

Ana Fonseca

Imagem: Carrie Vielle

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Marear

Agosto 28, 2013

Respiro a tua pele nos meus dedos
Colho a tua saliva em meus lábios
Beijo o mar dos teus segredos.

E sou barco, timoneiro e passageiro
Aquele que voga no ondular das vagas
Que navega em tuas águas
E te sulca em espasmos de alegria.

Afogado em teu ventre dou à costa
Como náufrago boiando sobre teus seios
E ressuscito com minha boca sobre a tua
O meu peito arfando sobre o teu.

As minhas mãos em tua praia
E sou espuma do sal que te beija.

A alga macia na seda ondulante
Sabe agora o teu corpo a maresia
Os teus olhos brilham, mar azul
Espelham o voo rasante das gaivotas
Em dia de tempestade e calmaria.

Fátima Guimarães e Joaquim Monteiro

Imagem: Liu Yuanshou

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Palavras

Agosto 28, 2013

Palavras que se dizem ao ouvido
quando nos queima a febre do desejo
e só ganham sentido
se saírem dos lábios como um beijo.
Palavras murmuradas no calor
da mútua entrega
a deixar claro que o amor
nunca sossega.
Palavras revestidas de veludo
para afagar a vida
e que no meio da corrida
são elas próprias quase tudo.

Torquato da Luz

Arte de Suren Voskanyan