Archive for Agosto, 2013

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Anseio-te…

Agosto 26, 2013

Anseio-te pelas palavras roucas e cortadas, pois deixei
por ti as moradas sem vida e sem sonho. Abro-me
como o linho dos lençóis. Amarrotas-me como as
pétalas de uma flor rebelde

Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS, (Kreamus, 2013)

Imagem: Alain Dumas (França)

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Disse-te um dia

Agosto 26, 2013

Disse-te um dia
que havia de dar-te uma estrela
tão real como os sonhos
do rio Guadalquivir
e o perfume adolescente
do teu corpo
a ondular na aurora de Sevilha
Não foste comigo a Barcelona
ver as pesadas corolas e os mosaicos
de La Pedrera
mas espera-me no aeroporto
de nunca antes
o rumor febril dos teu olhos
onde aprendi
que o tempo não existe
Mas a vida pode ser
também mágoa escura
bem sabes Por isso te prendo
as mãos sobre as ancas
para não fugirmos mais um do outro
e bebo todo o sol e afinal o tempo
nos teus lábios

Urbano Tavares Rodrigues, in HORAS DE VIDRO (Pub. Dom Quixote, 2011)

Imagem: Suzanne Frie

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Baptismo

Agosto 25, 2013

Para atrasar a morte vamos abrir a noite

com música de jazz

Percorrê-la depois

num barco de borracha

Celebrar o segredo

Enforcar a memória

Descobrir de repente

uma ilha que nasce dentro do teu vestido

Chamar-lhe Madrugada

Adormecer contigo

David Mourão-Ferreira

Imagem: Elena Ilku

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Uma carta ao cair da tarde

Agosto 25, 2013

Meu amor,
O oceano não precisa das tuas lágrimas para ficar mais salgado.
Nem os céus nem as estrelas ficarão mais luminosos
do que o brilho dos teus olhos.
mas a minha vida ficará mais deserta
sem o aconchego dos teus abraços
e o suspiro melancólico da tua voz em meus ouvidos.
Portanto, não se esqueça de que
o oceano sempre toca o céu no infinito das paixões,
assim como eu infinitamente enlaço o corpo da tua alma
despudoradamente através do erotismo que brota ávido
no corpo das minhas palavras.

Carlos Eduardo Leal,

in A SEDE DA MULHER (E DE UM HOMEM), (editado no Brasil, s/ data)

Imagem: Michal Lukasiewicz (Polónia)

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Sei ao chegar a casa

Agosto 24, 2013

Sei
ao chegar a casa
qual de nós
voltou primeiro do emprego

Tu
se o ar é fresco

eu
se deixo de respirar
subitamente

António Reis, in Novos Poemas Quotidianos, Porto, [1959]

Imagem: Catrin Arno

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A púrpura dos dias

Agosto 24, 2013

falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
– nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.

Vasco Gato

Imagem: Anya Zinkivskay, 2006

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Quarto de Lua

Agosto 24, 2013

Disseste-me um segredo baixinho

Envolveste-me em noites de luar amigo

Num odor de palavra jasmim

Em convites de seda doce

Em sorrisos de cantos (e)ternos

Em maresias de noites simples

Em estendais de poesia livre

Em flor constante… que partes

Na chegada próxima…

Onde desespero

E já te aguardo!

José Luís Outono, in MAR DE SENTIDOS (Edições Vieira da Silva, 2012)

Imagem: Christine Peloquin

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As ondas do mar parecem novelos ternos

Agosto 23, 2013

As ondas do mar parecem novelos ternos. O vento aquietou-se, adormeceu.
Sinto que chegas como um novelo onde nunca o frio mora.

Lília Tavares, n PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

Imagem: Rumen Nikolov

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Na rua

Agosto 23, 2013

Ninguém por certo adivinha
como essa Desconhecida,
entre estes braços prendida,
jurava ser toda minha…

Minha sempre! – E em voz baixinha:
– «Tua ainda além da vida!…»
Hoje fita-me, esquecida
do grande amor que me tinha.

Juramos ser imortal
esse amor estranho e louco…
E o grande amor, afinal,

(Com que desprezo me lembro!)
foi morrendo pouco a pouco,
– como uma tarde de Setembro…

Manuel Laranjeira,

in OBRAS DE MANUEL LARANJEIRA, org., pref. e notas de José Carlos Seabra Pereira (Asa, 1993)

Arte de Aldo Luongo

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Nascemos para amar

Agosto 23, 2013

Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços da ternura:
Tu és doce atractivo, ó formusura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n’alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abismou na lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Arte de Zeng Chuanxing