Archive for Setembro, 2013

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As palavras de amor

Setembro 30, 2013

Esqueçamos as palavras, as palavras:
As ternas, caprichosas, violentas,
As suaves de mel, as obscenas,
As de febre, as famintas e sedentas.

Deixemos que o silêncio dê sentido
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre:
Que palavra ou discurso poderia
Dizer amar na língua da semente?

José Saramago, in PROVAVELMENTE ALEGRIA (Caminho, 5ª ed., 1999)

Imagem: Connie Chadwell

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A morte do amor

Setembro 30, 2013

Se eu pudesse voltar atrás
Não te amava.
É tão mais fácil
Manter o coração quieto no peito
Como se todos os dias
E todas as horas fossem iguais.

A inquietação de me faltares
Deixa os meus olhos tristes
Esperando que aceites
A mão que te estendo.

Mas tu não estás.
Eu parti com a última onda
Sem saber se voltarei um dia,
E o caminho que os nossos pés
Juntos percorreram
Choram a saudade
De ter morrido o amor
Quando dissemos adeus.

Ana Brilha, in A APOLOGIA DO SILÊNCIO (Ed. autor, 2012)

Imagem: Rob Hefferan

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A pele é o espelho da memória

Setembro 29, 2013

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele,
onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos.
Tantas vezes o suor os traz consigo da memória,
que não tenho na pele poro através do qual
eles não procurem sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória.

Luís Miguel Nava

Imagem: Fanny Nushka Moreaux 

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Morre a chuva na terra

Setembro 29, 2013

Morre a chuva na terra.

Sou eu

a morrer no teu corpo

para voltar a ser semente.

Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS, (Kreamus, 2013)

imagem:  Vladimir Dunjic

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Para a Agripina

Setembro 28, 2013

 

Amanheceu a minha vida no teu rosto
De uma doçura intensa e tão suave
Como se um divino fundo nele brilhasse
Eu era o que nascia soberanamente leve
E encontrava na limpideza centro do equilíbrio
Só em ti cheguei amanhecendo na minha madurez
Entrei no templo em que a luz latente era a secreta sombra
Foste sonhada por meus olhos e minha mãos
Por minha pele e por meu sangue
Se o dia tem este fulgor inteiro é porque existes
E é porque existes que se levanta o mundo
Em quotidianos prodígios
Em que ao fundo brilha o horizonte certo.

António Ramos Rosa, in O TEU ROSTO (Ed. Pedra Formosa, 1944)

imagem: Vivian Anderson

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Penumbra

Setembro 28, 2013

Na penumbra dos ombros é que tudo começa
quando subitamente só a noite nos vê
E nos abre uma porta nos aponta uma seta

para sermos de novo quem deixámos de ser

David Mourâo-Ferreira, in OBRA POÉTICA (Ed. Presença, 1988)

Imagem: Omar Ortiz (detalhe)

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Uma troca simples de mãos para que a melodia vingue

Setembro 26, 2013

Uma troca simples de mãos para que a melodia vingue
no andamento em que nos reconhecemos.
Uma fracção de tempo, um disparo
para que se entreteçam as pedras, os blocos de fogo.

Hoje disponho o mar ante os teus olhos, a tempestade,
a crueza sistemática das coisas, essa chuva que arde
neste efémero instante
que corta a costa, a barra, o farol.

De onde venho? Correspondo a que uivo
nesta solidão entre o abismo e coisa nenhuma?

Amadeu Baptista

Imagem: Fanny Nushka Moreaux