Archive for Setembro, 2013

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Tu ensinaste-me a fazer uma casa

Setembro 25, 2013

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Joaquim Pessoa, in OS OLHOS DE ISA (Litexa, 1983)

Imagem:  Georgeta Blanaru

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Amo o teu túmido candor de astro

Setembro 23, 2013

Amo o teu túmido candor de astro
a tua pura integridade delicada
a tua permanente adolescência de segredo
a tua fragilidade sempre altiva

Por ti eu sou a leve segurança
de um peito que pulsa e canta a sua chama
que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro
ou à chuva das tuas pétalas de prata

Se guardo algum tesouro não o prendo
porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar

Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva
para que sintas a verde frescura
de um pomar de brancas cortesias
porque é por ti que nasço
porque amo o ouro vivo do teu rosto.

António Ramos Rosa,in O TEU ROSTO (Pedra Formosa , 1944)

Imagem: Anna Omelchenko

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Dá-me o puro cansaço após o amor

Setembro 22, 2013

Dá-me o puro cansaço após o amor
à fresca sombra da tarde.
Agora que é ido o desejo, concede-te
este breve instante de paz e repousa.

Toda a minha vida possui isto:
uma boca a brilhar sozinha em meu peito.

Mas a carne é sonho ao tocar-se nela,
ao senti-la fremente em nossos lábios indefesos;
a carne é já cinza, esquecimento,
frio desolador que se anuncia.

Porém, vê como arde a tua boca
negando o vazio que sempre perto nos aguarda;
vê como arde o meu peito
com um resplendor que por ti jamais se apaga.

“Porquê beijar teus lábios se se sabe que a morte
está próxima, se se sabe que amar é esquecer
a vida apenas, fechar os olhos ao sombrio
presente para os abrir aos radiosos limites
de um corpo?”

Porquê respirar esta luz carnal frente ao curso
de um poderoso rio que cruelmente nos ignora
mas onde de súbito uma gota de orvalho esplende
como uma lágrima nossa?

Não, também eu não quero acreditar numa verdade
que nos livros se lê como uma água,
também eu não posso aceitar essa futura agonia
que reduz a um último estertor
a cálida juventude de um amado corpo.

Quero crer, oh sim, crer que a luz que das tuas mãos
se evola subsiste à melodia triste dessa água,
passageira, quero acreditar no talismã vermelho
que pulsa feliz
em meu peito enamorado só porque o teu nome
fulgura nele como uma estrela obstinada,
nesses olhos que não são feridas mas apenas
frescas margens,
que me devolvem, cada dia, incólume,
o azul das ondas
que contra mim, mortais, embatem.

Gonçalo Salvado, in IRIDISCÊNCIAS (Sirgo, 2003)

Imagem: Gayetano de Arquer- Buigas

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Desejo

Setembro 21, 2013

Deseja-o
como já não
se lembrava
de o ter
o seu corpo
arde em silêncio
os lábios
latejam
pedindo
as pernas
tremem
o coração bate
descompassado
todo o corpo
num frémito
crescente
Hesita
insegura
Deseja-o
Enlaça-o
num ímpeto
esmaga-lhe
os lábios
húmidos
percorre-lhe
o corpo
tateando
todas as saliências
deita o seu
no dele
não hesita
toma posse
e
em movimentos
estonteantes
ritmados
vibrantes
amam-se
amam-se
sofregamente
como se
não houvesse
amanhâ

Fátima Guimarâes (a publicar)

Imagem: Rodin

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A noite desce

Setembro 21, 2013

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos cansados, carinhosas,
A noite desce… Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz…
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, muda e calma…
Meu doce Amor, tu beijas a minh’alma
Beijando nesta hora a minha boca!

Florbela Espanca,

in LIVRO DE SOROR SAUDADE (1923), in SONETOS (Ediclube, 1995)

Imagem: Botelho ( retrato de Florbela Espanca )

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Desejo

Setembro 20, 2013

Queria ser essa noite que te envolve; e

cobrir-te com o peso obscuro dos braços

que não se vêem. Um murmúrio

desceria de uma vegetação de palavras,

enrolando-se nos teus cabelos como

secretas folhas de hera num horizonte

de pálpebras. Deixarias que te olhasse

o fundo dos olhos, onde brilha

a imagem do amor. E sinto os teus dedos

soltarem-se da sombra, pedindo

o silêncio que antecede a madrugada.

Nuno Júdice, in O ESTADO DOS CAMPOS (P. D. Quixote, 2003)

imagem: Gabriel Bonmati

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Desperta-me de noite

Setembro 17, 2013

Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vício as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.

Maria Teresa Horta

Imagem:  Richard Young