Archive for Setembro, 2013

h1

Segredo

Setembro 12, 2013

Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas trevas do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome – essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração.

Fernando Pinto do Amaral

Imagem: Marc Chagall

h1

Margem

Setembro 10, 2013

Nesta margem secreta onde o teu nome
Docemente me corre pelas veias
E letra a letra acorda em mim a fome
De horizontes perdidos nas ideias

Neste lugar de inquietação e calma
Onde todos os sonhos são possíveis
Onde a palavra é um corpo e o corpo é alma
E os nossos rostos sombras invisíveis

Neste deserto onde és tudo e és nada
Vejo-nos abraçados meu amor
E alcanço o céu e o chão da madrugada
Para te dar uma estrela ou uma flor

Mário Domingos,

in O DESPERTAR DOS VERBOS (Edium Editores, 2011)

Imagem: Eduardo Arguelles

h1

entre a saliva e os sonhos

Setembro 9, 2013

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

Alice Vieira

Imagem: Igor Venski

h1

Sujei o teu nome

Setembro 8, 2013

Sujei o teu nome
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o

O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconhecia a minha voz
Ai que deserta liberdade

Preso de novo
que rede tamanha
de laços e vozes
Um eco talvez
Um eco incessante

António Ramos Rosa, in MATÉRIA DE AMOR (Ed. Presença, 1983) 

Imagem: Alison Van Pelt

h1

Sobre o amor e as palavras

Setembro 8, 2013

De palavra em palavra vou lavrando o corpo do teu texto: por amor

maculo pensamentos e sujo vogais com o intuito de te encontrar ao final

de cada página e me amares por não-ser.

Carlos Eduardo Leal (a publicar)
Imagem: Giampaolo Ghisetti
h1

Lateja-me nos dedos cada prega do teu corpo

Setembro 7, 2013

Lateja-me nos dedos cada prega do teu corpo
Na pele nua a maciez da tua pele
No corpo inunda-me a quentura da tua seiva

A lua está linda, resplandecente
mas para quê a lua se nos lábios
persiste a ternura de uma gota de orvalho

Deliciada fecho os olhos…
Deixo a minha mão escorregar
pelo teu corpo macio
Adormeço.

Fátima Guimarâes(a publicar )

Imagem: Hu Jun Di

h1

Sonhos improváveis

Setembro 6, 2013

Acalmas-me
Porque me despertas
Fazes-me promessas
Parecem-me inviáveis
Até que me abraças

E enlouquecemos os dois
Nas inesperadas noites
De sonhos improváveis…

José Gabriel Duarte, in AS CORES DO DESEJO (a publicar)

Imagem:  Csaba Markus

h1

A tua mão

Setembro 5, 2013

Tiro a mão que me esconde o triângulo,
e ela resiste à mão que a desvia: mas
procuro acertar no seu ângulo, e entre
-ver a fresta por onde o amor corria.

Beijo essa não e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco.
bebendo desse cálice o puro vinho
que me libera sem sair do cerco.

Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que o meu desejo se rende;

e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.

Nuno Júdice,  in O ESTADO DOS CAMPOS (Pub. Dom Quixote, 2003)

Imagem:  Jarko Aka Lui Grande

h1

Sempre amei por palavras muito mais do que devia…

Setembro 4, 2013

Sempre amei por palavras muito mais
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

Alice Vieira, in O QUE DOI AS AVES (Caminho, 2009)

Imagem:  Viktor Sheleg

h1

Deixa que os meus olhos se fechem

Setembro 2, 2013

Deixa que os meus olhos se fechem
E confiem um minuto nos teus…
Olha por mim, protege o meu sonho
Vigia o meu descanso e afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos apaga as lágrimas que correm pelo
meu rosto
Envolve-me nos teus braços e, cuida de mim
Preciso do teu apoio, do teu abraço, do teu sentido
Deixa-me descansar e,
Adormecer no teu peito
Deixa que os meus olhos durmam
nos teus…
Deixa-me sonhar
Deixa que sonhe com a tua boca
Com as tuas mãos, com os teu beijos,
Com teu corpo na minha pele
Com o teu calor a queimar-me por dentro
Com tudo o que quero de ti
Deixa que os meus olhos despertem
com o sol a romper nos teus olhos…

Albano Martins

Imagem: Maria Szollosi