Archive for Novembro, 2013

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Forma quase uma fome

Novembro 28, 2013

Há uma forma exata
de se dizer amor

mas ninguém sabe dela
senão que a desconhece.

e que tenta solvê-la.
Poema beijo encontro

tudo isso é a só busca
ansiosa e desesperada

dessa forma esperada
de se dizer amor.

Forma quase uma fome
que não morre nem come.

Renata Pallotini

Arte por Tzviatko Kinchev

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Noturnamente

Novembro 25, 2013

Noturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces

Mia Couto

Arte por Francine Van Hove

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Amo-te com todas as letras

Novembro 19, 2013

Amo-te com todas as letras
Mas não sei como as usar
Oiço-as em surdina
Trémulas, receosas
Em vez de as gritar!

José Gabriel Duarte
in NO OUTRO LADO DE MIM (Chiado Ed., 2012)

Arte por Hélène Terlien

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Contigo

Novembro 12, 2013

Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.

Eugénio de Andrade

Arte por Eiko Ojala

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Confidência

Novembro 11, 2013

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Fernando Pessoa,
In Poemas de Alberto Caeiro, O Pastor Amoroso
Arte por Alice Vegrova

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Só eu sinto bater-lhe o coração

Novembro 10, 2013

Dorme a vida a meu lado, mas eu velo.
(Alguém há de guardar este tesoiro!)
E, como dorme, afago-lhe o cabelo,
Que mesmo adormecido é fino e loiro.

Só eu sinto bater-lhe o coração,
Vejo que sonha, que sorri, que vive;
Só eu tenho por ela esta paixão
Como nunca hei de ter e nunca tive.

E logo talvez já nem reconheça
Quem zelou esta flor do seu cansaço…
Mas que o dia amanheça
E cubra de poesia o seu regaço!

Miguel Torga, in Diário (1946)

Arte por Pascal Chôve

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Novembro 7, 2013