Archive for Dezembro, 2013

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Tu

Dezembro 15, 2013

Pela tua nudez

toda a glória do mundo

cabe em minhas mãos

Ardo

Corre em mim tumultuada

uma lava ardente

que só em ti descobre rumo

e apaga o tempo

Edgardo Xavier

Arte por Eugenia Picado

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Num álbum

Dezembro 14, 2013

I
És uma tentadora: o teu olhar amável
Contém perfeitamente um poço de maldade,
E o colo que te ondula, o colo inexorável
Não sabe o que é paixão, e ignora o que é bondade.

II
Quando me julgas preso a eróticas cadeias
Radia-te na fronte o céu das alvoradas,
E quando choro então é quando garganteias
As óperas de Verdi e as árias estimadas.

III
Mas eu hei-de afinal seguir-te a toda a parte,
E um dia quando eu for a sombra dos teus passos,
Tantos crimes terás, que eu hei-de processar-te,
E enfim hás-de morrer na forca dos meus braços.

Cesário Verde, in OBRA COMPLETA (Portugália Ed., s/ data)

Arte por Richard Hoedl

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Poema quadragésimo

Dezembro 13, 2013

Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.

Joaquim Pessoa, in GUARDAR O FOGO (Edições Esgotadas, 2013) 

Arte por Michal Lukasiewicz

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Jaz uma colcha de linho no passado

Dezembro 11, 2013

Jaz uma colcha de linho no passado
Das orquídeas
Quando tua sofreguidão se esbatia entrecortada
Na penumbra
Gemendo a saudade
Nas cortinas velhas do quarto antigo…
Tuas mãos ainda habitam o séquito do meu corpo
Nesta ausência.

Sabes, fui até ao cais de nós e esqueci de voltar.

Estávamos senis, enlouqueceramos em todos os orgasmos.
Mas os pardais, aqueles que fizeram ninho
Nas telhas do antigo quarto,
Eles sempre regressam, chilream livremente.

Jazem dois corpos enlaçados de paixão sob a colcha de linho.
Vejo-os tão longínquamente…
Eu espero-te.
O meu corpo sempre arderá nos teus lábios.

Célia Moura (a publicar)

Arte por Ron DiScenza

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A língua sobre a pele o arrepio

Dezembro 9, 2013

A língua sobre a pele o arrepio
Os teus dedos nas escadas do meu corpo

As lâminas do amor o fogo a espuma
A transbordar de ti na tua fuga

A palavra mordida entre os lençóis
As cinzas de outro lume à cabeceira

Da mesma esquina sempre o mesmo olhar:
Nada do que era teu vou devolver.

Alice Vieira, in Dois corpos tombando na água

Arte por  Bill Bates

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Poema quadragésimo sexto

Dezembro 8, 2013

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.

Joaquim Pessoa, in GUARDAR O FOGO (Ed. Edições Esgotadas, 2013)

Arte por Anke Merzbach

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Um outro tanto

Dezembro 7, 2013

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia

poder amar-te ainda
um outro tanto

Maria Teresa Horta, in “Inquietude” quasi (06)

Arte por Stefan Kuhn

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De que me serviu ir correr mundo

Dezembro 5, 2013

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para parar-me, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.

Maria do Rosário Pedreira

Imagem: artista desconhecido