Archive for Dezembro, 2013

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Eu cantarei um dia da tristeza

Dezembro 19, 2013

Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.

Abrandarei das penhas a dureza
exalando suspiros tão queixosos
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos
ave, ponte, montanha, flor, corrente
comigo hão-de chorar de amor enredos.

Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos
que eu derramo os meus ais inutilmente.

Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre (Marquesa de Alorna),

in Poesias, org. de Hernani Cidade (Sá da Costa, 1960)

Arte por Lilya Corneli

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Amor

Dezembro 18, 2013

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acelerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
Que sensível és…
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!
Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.
Canseira eterna!

Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes,
tanto grito e pena perdida…
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti e tu de nós?

Irene Lisboa, in POEMAS DE AMOR, seleção de Inês Pedrosa ( D. Quixote, 2000) 

Arte por Cayetano de Arquer Buigas

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A mulher a casa

Dezembro 17, 2013

A casa é viva
(A mulher dorme)
Dorme na espuma
nas cores puras
Dorme na espuma do silêncio

Planos brancos
e cores lisas

Dorme no vidro
tranquilo

Dorme viva

A casa é branca
É mais branca no silêncio
É mais branca entre as árvores

A própria cidade é branca

A cabra
cheirou a casa
cheirou o branco

O puro nó
do silêncio

Chego em silêncio
à mulher viva
dormindo

A casa é ela
em espiral
rodando
branca

É fino o ar
quase sem pó
uma árvore dá
uma curta sombra

Uma brisa lava
a casa fresca

A varanda nua
é seca e branca
com sede de mar

A caranda é nua
a mulher é nua

Da casa branca
vê-se o mar
o fulvo dorso
da praia
nu
mulher de areia
deitada e panda
na frescura azul

Uma vela branca
de minúcia fresca

dá ao olhar a brisa

dá ao silêncio o mar

A mulher dorme
viva
na espuma
do silêncio

António Ramos Rosa, in VOZ INICIAL (1960), in ANTOLOGIA POÉTICA ,

Selecção, Prefácio e Bibliografia de ANA PAULA COUTINHO MENDES (Pub. Dom Quixote, 2001)

Imagem: Jaqui Yebra

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Tu

Dezembro 15, 2013

Pela tua nudez

toda a glória do mundo

cabe em minhas mãos

Ardo

Corre em mim tumultuada

uma lava ardente

que só em ti descobre rumo

e apaga o tempo

Edgardo Xavier

Arte por Eugenia Picado

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Num álbum

Dezembro 14, 2013

I
És uma tentadora: o teu olhar amável
Contém perfeitamente um poço de maldade,
E o colo que te ondula, o colo inexorável
Não sabe o que é paixão, e ignora o que é bondade.

II
Quando me julgas preso a eróticas cadeias
Radia-te na fronte o céu das alvoradas,
E quando choro então é quando garganteias
As óperas de Verdi e as árias estimadas.

III
Mas eu hei-de afinal seguir-te a toda a parte,
E um dia quando eu for a sombra dos teus passos,
Tantos crimes terás, que eu hei-de processar-te,
E enfim hás-de morrer na forca dos meus braços.

Cesário Verde, in OBRA COMPLETA (Portugália Ed., s/ data)

Arte por Richard Hoedl

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Poema quadragésimo

Dezembro 13, 2013

Quando me deito contigo
respiro apenas pela pele.

E digo-te tudo
sem uma única palavra.

Joaquim Pessoa, in GUARDAR O FOGO (Edições Esgotadas, 2013) 

Arte por Michal Lukasiewicz

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Jaz uma colcha de linho no passado

Dezembro 11, 2013

Jaz uma colcha de linho no passado
Das orquídeas
Quando tua sofreguidão se esbatia entrecortada
Na penumbra
Gemendo a saudade
Nas cortinas velhas do quarto antigo…
Tuas mãos ainda habitam o séquito do meu corpo
Nesta ausência.

Sabes, fui até ao cais de nós e esqueci de voltar.

Estávamos senis, enlouqueceramos em todos os orgasmos.
Mas os pardais, aqueles que fizeram ninho
Nas telhas do antigo quarto,
Eles sempre regressam, chilream livremente.

Jazem dois corpos enlaçados de paixão sob a colcha de linho.
Vejo-os tão longínquamente…
Eu espero-te.
O meu corpo sempre arderá nos teus lábios.

Célia Moura (a publicar)

Arte por Ron DiScenza