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Parto com os ventos

Janeiro 4, 2014

Passamos pelos ventos
como as aves tardias.
Azul é a folhagem
que cobre a nossa nudez branca.

Violinos tocam a melodia
dos nossos abraços
e as ondas beijam
os lábios plenos e sedentos
por outra boca.

Sou tarde e noite
deste dia segundo
em que os relógios
páram para nos deixar
avançar sobre as pedras as pedras
e à chuva.

Vazia fico sobre as tuas mãos abertas
e muda porque se alongam
os teus braços
e me envolve o teu corpo
suado e quente que desejo.

Nada sei.
Sou página em branco
onde a tinta dos teus gestos
me desenha e prolonga.

Esta noite é líquida
nos meus olhos esvaziados
de rumores e saudade.
Fixo o farol e a luz
da vida cúmplice.

Como as gaivotas parto
e regresso
porque este areal é meu.

Nem os búzios perdidos
nas águas profundas me podem
chamar com cânticos e brilhos.

Sou ilha e barco,
tu a margem que espera.

Parto com os ventos.

Lília Tavares , in Parto com os Ventos (Kreamus Edições, 2013)

Arte por Albena Vatcheva

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