Archive for Março, 2014

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Clara Água

Março 21, 2014

Eu sou a palavra que transita
De teu olhar, a clara água.
Leve, breve e subtil a imanência
Do perfume.
Que na inocência do momento
Se entrelaça.
Ansiosas as mãos procuram
O delírio do olhar.
E o sol nos lábios nasce.
Sereno o rosto do dia, o hálito fresco
Do lírio, trespassando o aroma do beijo.
Tão branca a cal dos muros, onde o amor
Se inscreve insubordinado.
E o mundo tão grande e tão azul
Nas palavras reflectidas no murmurar dos lagos.
Hoje escrevo amor e visto solene traje
Para que o dia não morra até ao despir da noite
E fiquem espalhadas pelo chão
As roupas do nosso contentamento.

Joaquim Monteiro, in RIO DE DOZE ÁGUAS, 12 POETAS (Coisas de Ler Ed., 2012)

Arte por Leonid Afremov

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Palavra que desnudo

Março 20, 2014

Entre a asa e o voo
nos trocámos
como a doçura e o fruto
nos unimos
num mesmo corpo de cinza
nos consumimos
e por isso
quando te recordo
percorro a impercetível
fronteira do meu corpo
e sangro
nos teus flancos doloridos
Tu és o encoberto lado
da palavra que desnudo

Mia Couto (Abril 1981), in Raiz de Orvalho e outros poemas

Arte por Kart Van Wagner

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Ainda te falta dizer isto

Março 18, 2014

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.

Albano Martins

Arte por Carrie Vielle

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Gostaria tanto

Março 16, 2014

Gostaria tanto….
De tocar a superfície da maresia
Com as minhas mãos sedentas e sentir-te apelo…

Gostaria tanto …
De escrever-te pétalas tinta sorriso
E declamar-te com os teus versos partilha…

Gostaria tanto…
De amar-te murmúrio doce
Na tua entrega paixão querer de ti segredo nosso…

Gostaria tanto…
De dizer-te o que me queres soletrar
No prolongar infinito do teu enleio alma…trajecto redacção…

Gostaria tanto…
De ouvir as tuas canções nossas
E invejar o teu saber dizer de poemas versus coração…

Gostaria tanto…
De me render à tua “luta” apego
E ficar prisioneiro do único amor com o amor que entoas…

Gostaria tanto…
De nada saber e tudo me ensinares
No cultivar sólido de sabores teus…doados nossos…

Gostaria tanto…
De correr para ti…como menino carente
No fim de cada minuto saudade e sorrir no teu abraço abrigo…

Gostaria tanto…
De aprender contigo a moldar a cor do acto
E suspirar no acreditar da certeza página presente…

Gostaria tanto…
Que me escrevesses um poema silêncio
Em grito surdo de respiração suspensa …para lá do possível

Gostaria tanto
De nunca ter de conjugar verbo no passado
Porque a tua caligrafia semeia sempre futuro
em cada escrita dita…hoje presente…

Gostaria tanto…
De chorar …apenas para apagar vulcões de êxtase
Que me dás em oferta solta almejo de vida sempre a colorir…

Gostaria tanto…
De dizer-te paixão…com um obrigado abençoado…
Porque se Deus existe…tu és o Universo da felicidade…

Gostaria tanto…
De nunca findar este caminhar a dois
Onde exigisses amor com amor…até ao beijo final….

Gostaria tanto…
De dizer tanto…e tanto ouvir…
No tanto que há para viver…no tanto que há para amar…no tanto que há para dizer

Gostaria tanto…
De não te conhecer…e puxares a minha mão
Para te conhecer e percorrer estrada rio… nascente foz… mar… horizonte…sofreguidão conhecimento…o teu jardim…

Gostaria tanto…
De ouvir a tua verdade…nas verdades que tens…
Bálsamo fidelidade…código único…

Gostaria tanto…
Que a única diferença de sermos…fosse a interpretação
Homem …mulher…nunca o esgrimir
posições …porque somos…

Gostaria tanto…
De acordar…com o teu acordar…
E sentir-me com o teu acordo do acordo que rubricámos…

José Luís Outono, in Da Janela do meu (A)Mar (Ed. Vieira da Silva, 2011)

Arte por Albena Vatcheva

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Se eu escrevesse um poema sobre ti…

Março 13, 2014

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…teria que convocar as madrugadas
em que acordámos abraçados,
de peles húmidas e orvalhadas,
em beijos (des)compassados
em que os silêncios eram palavras

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…agarraria nos sorrisos que me deste
e em tantos momentos apenas nossos,
nos abraços com que me preencheste,
e nos pensamentos mais devassos
que nos percorreram o norte, o sul, o leste

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…escreveria sobre o mar
e as nuvens que disputam o céu,
desse verbo que gostamos de conjugar,
dos nossos corpos nus, sem véu,
e que rima(m) com loucura, com paixão, com amar

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…desenharia um vulcão incandescente
um raio caído sem destino,
ou uma tarde calada e entorpecente,
um orgasmo inequívoco em puro desatino,
um amanhã sem letras, (in)consciente

Se eu escrevesse um poema sobre ti…

…invocaria os deuses desconhecidos
para cantarem em coro o nosso requiem
em celebração dos gestos decididos,
nas auroras, e nos ocasos também,
inscritos nos devaneios preteritamente iludidos

ai…se eu escrevesse um poema sobre ti…

António Barroso Cruz, in Poemas à Flor da Pele (O Liberal Ed., 2013)

Arte por Erica Hopper 

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Por amor

Março 12, 2014

Só ficará de ti o que fizeste
por amor.
O resto não valeu:
foi apenas poeira que se ergueu
em teu redor
e o vento varreu.

Só ficará de ti o que escreveste
com paixão.
O resto não contou:
foi tão-só uma sombra que passou,
pura ilusão,
e nem rasto deixou.

Torquato da Luz

Arte de David Agenjo

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Na luz de um outro olhar

Março 10, 2014

Há dias em que a estrada é linda
E os passos não se contam
Há dias em que nos sentimos longe
Na serena luz que finda
Sem gente nem flores

Ninguém nos vê mas estamos
Somos
Ficamos
Na cor de um outro olhar

Edgardo Xavier, in Amor Despenteado (Casa das Cenas, 2007)

Arte por Helga Hornung