Archive for Março, 2014

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Saudades do teu corpo

Março 9, 2014

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma? …

Anda a saudade do teu corpo (sentes? .. )
Sempre comigo: deita-se ao meu lado
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado … »

É o teu corpo em sombra esta saudade …
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios- sombra:
a luz do seu olhar é escuridade …

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra …
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

 António Patrício, in Poesia Completa, Assírio e Alvim, 1989

Arte por Carrie Vielle

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Já não há domingos

Março 8, 2014

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só os meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só os meus olhos se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.

Todas as mortes gastei
para viver contigo.

Mia Couto, in Idades Cidades Divindades (Ed. Caminho, 2007)

Arte de DrawntoStitch

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Sem que soubesses

Março 7, 2014

Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.

Fernando Assis Pacheco

Arte por Alexander Akhanov 

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Negação

Março 4, 2014

O rio do teu corpo
não me foi margem.
Só na noite interior
das minhas pálpebras
provei a tua boca

Luisa Dacosta, in  in A Maresia e o  Sargaço dos Dias (Asa II, 2011)

Arte por John Worthington

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Tudo é paixão

Março 2, 2014

Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.

Joaquim Pessoa, in Ano Comum

Arte por Josef Kote 

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O tu e o eu na paisagem

Março 1, 2014

Não é o restolhar do vento.
É a tua lembrança
que se ergue em mim.

Não é a rosa do sol a esfolhar-se.
É a minha boca -sede e romã-
que sangra na tarde.

Não é a noite que desce.
É a sombra dos teus olhos
a fechar o horizonte.

Luísa Dacosta, in A Maresia e o sargaço dos dias (Asa II, 2011)

Arte por Chaline Ouellet