Archive for Maio, 2014

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Encostei-me a ti,

Maio 29, 2014

Encostei-me a ti,

sabendo que eras somente onda.

Sabendo bem que eras nuvem

depus a minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso,

e dei-me ao teu destino frágil,

fiquei sem poder chorar,

quando caí.

Cecília Meirelles

Arte por Serge Marshennikov

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Para não deixar de amar-te nunca

Maio 22, 2014

Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio, 
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.

Pablo Neruda

Imagem: Michael Shapcott

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Contigo

Maio 20, 2014

Vivo a noite contigo
e juntos andamos
em quietude de seda.

Pele e vontade
corpo e verdade
um sal de ti.

Vivo a noite contigo
e vou pela quentura
do teu peito adormecido
até ao fim das estrelas.

Edgardo Xavier, in Azul como o silêncio

Arte por  Renata Brzozowska

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Movimento

Maio 18, 2014

Se tu és a égua de âmbar
eu sou o caminho de sangue
Se tu és o primeiro nevão
eu sou quem acende a fogueira da madrugada
Se tu és a torre da noite
eu sou o cravo ardendo em tua fronte
Se tu és a maré matutina
eu sou o grito do primeiro pássaro
Se tu és a cesta de laranjas
eu sou o punhal de sol
Se tu és o altar de pedra
eu sou a mão sacrílega
Se tu és a terra deitada
eu sou a cana verde
Se tu és o salto do vento
eu sou o fogo oculto
Se tu és a boca da água
eu sou a boca do musgo
Se tu és o bosque das nuvens
eu sou o machado que as corta
Se tu és a cidade profunda
eu sou a chuva da consagração
Se tu és a montanha amarela
eu sou os braços vermelhos do líquen
Se tu és o sol que se levanta
eu sou o caminho de sangue

Octavio Paz, in Salamandra

Arte por Viktor Sheleg

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Onde quer que o encontres escrito…

Maio 15, 2014

Onde quer que o encontres

escrito, rasgado ou desenhado:

na areia, no papel, na casca de

uma árvore, na pele de um muro,

no ar que atravessar de repente

a tua voz, na terra apodrecida

sobre o meu corpo – é teu,

para sempre, o meu nome.

Maria  do Rosário Pedreira, in Nenhum nome depois (2004),

in Poesia Reunida Quetzal, 2012)

Arte por Gino Severini

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Chovo

Maio 14, 2014

Chovo
sentada dentro de mim.
Foste e contigo a tua pele
que me secava as lágrimas de silêncio.
Contigo foram as mãos, o abraço,
o beijo lavado e inteiro.
Da minha gruta já é doloroso sair.
Os meus olhos, outrora largos,
apertam-se para fugir à chama agressiva.
Estou fria e desabitada.
Vem.
Aqui o tempo partiu do tempo.
Só tu podes consertar os ponteiros despedaçados da
memória.
Contigo os ventos virão
e as aves que tinham desistido,
vão nidificar de novo no meu colo.

Lília Tavares, in Parto com os Ventos (Kreamus, 2013)

Arte Renata Brzozowska

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O silêncio

Maio 13, 2014

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in Obscuro Domínio

Arte por Clare Elsaesser