Archive for Agosto, 2014

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gosto do meu corpo quando está com o teu corpo

Agosto 30, 2014

gosto do meu corpo quando está com o teu
corpo. É uma coisa tão nova.
Tão bem os músculos e os nervos ainda mais.
gosto do teu corpo. gosto do que ele faz,
gosto dos seus modos. gosto de sentir a espinha
do teu corpo e dos seus ossos e sua trepidante
-firme-suave natureza que eu irei
de novo, de novo e de novo
beijar, e gosto de beijar isto e aquilo de ti,
gosto de acariciar lentamente a névoa chocante
da tua pele eléctrica, e o-que-é vem
sobre a carne separada …E nos olhos as migalhas de um grande amor,

e possivelmente gosto da emoção

de seres tão nova comigo.

Edward Estling Cummings  in No Thanks (1935), in Complete Poems 1904-1962

(Liveright Pub., 1994), traduzido por Carlos  Campos

Arte de  IvonaTorovin

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Janela corporal

Agosto 29, 2014

Abro a janela do teu corpo
Afasto as vestes dos teus cabelos
Acaricio os degraus do teu seio
E digo-te…
Vem murmúrio doce
A manhã é eterna quando se ama!

José Luís Outono, in Mar de Sentidos (Ed. Vieira da Silva, 2012)

Arte de Jan Delikat

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No teu ombro pousada, a minha mão

Agosto 28, 2014

No teu ombro pousada, a minha mão

Toma posse do mundo. Outro sinal

Não proponho de mim ao que defino:

Que no mínimo espaço desse gesto 

Se desenhem as formas do destino.

José Saramago, in Provavelmente Alegria (Caminho, 5ª ed., 1999)

Arte por Pier Toffoletti 

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Tropeço no teu nome

Agosto 27, 2014

Tropeço no teu nome

nas tuas mãos

estendidas

no teu olhar longo

de infinito

tropeço em tudo

o que seja teu

um sorriso

um beijo

um abraço

faz-me um favor

tropeça em mim

Joaquim Alves

Arte de Oleg Sheludyakov

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Diz o meu nome

Agosto 26, 2014

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem
os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

Mia Couto in Raiz de Orvalho

Arte de Maurice Denis

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Eram dois

Agosto 25, 2014

Eram dois
dois corpos entrelaçados
que se amavam

Eram como feixes de luz
que se cruzavam

Eram como fios de vida
que se atavam

Eram dois
dois corpos ligados
que se libertavam

Porque tudo o que dantes
entre eles
eram fronteiras,
sombras e barreiras

Naquele instante
os dois fogosamente
dentro e fora deles
atravessavam…

José Gabriel Duarte, in As Cores do Desejo

Arte de Inna Tsukakhina

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A tua boca

Agosto 23, 2014

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.

Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor-de-rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.

As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.

Joaquim Pessoa in Os Olhos de Isa

Arte de Danny O’Connor