Archive for Setembro, 2014

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Quando o amor morrer

Setembro 11, 2014

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobra as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços
A Deus e aos sonhos que gelaram.

Ruy Cinatti, in Obra Poética ( Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992)

Arte de Andrew Ferez

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Perda

Setembro 5, 2014

Na luz dos teus olhos
vi um brilho que me iluminou
uma mão que se estendeu
onde meu coração pousou
Foram apenas breves
instantes de pássaro fugido
triste coração regressa
para dentro de si escondido
Mas a recordação é perene
como luzes em enxame
num voo que pica a carne
e a deixa exangue
Deixando na pele a marca
da espera que não se alcança
remate burlesco da desfeita
de quando se perde a esperança
Da memória viva ao viver do sonho
vai a distância de uma vida
aquilo que é é aquilo que tenho
é coisa achada é coisa perdida

José Bernardes, in Palavras Imóveis 

Arte de Jantina Peperkamp

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Veste-me a seda

Setembro 4, 2014

Veste-me a seda
das tuas mãos
serenas
Veste-me a roupa quente da tua pele
e aperta-me com o cinto dos teus braços
no lugar onde o meio traz cansaços
Evita que na ausência de ti gele

Recorta-me
em pequenos pedaços
Ata-me em laços
e guarda-me no coração
antes de saíres para o mundo
e bater no fundo
da traição que te apetece

Edgardo Xavier

Arte de Peter Harskamp

 

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Amor de ontem hoje e sempre

Setembro 1, 2014

 Um amor que não morre
é um amor que se alimenta de lembranças.
Um amor que não morre
é um amor que se regozija no presentem
não esquece o passado e suspira pelo futuro.

Amor, humores, rumores
há algo sempre aí
haverá algo sempre no ar,
sangrando
a imaginar nossos corpos
a silenciar nossas posses
nossas possessividades
ontem, hoje e sempre.

Queria calar o que morre em mim:
o calor dos seus abraços
a esquiva dos seus olhares
a tempestade que inunda
minhas planícies.

Um amor que não morre
é o encontro com a tua voz, com teu corpo
é um amor que se lança ao futuro
com a única certeza daquilo que foi, é e será:
o amor de uma vida inteira.

Carlos Eduardo Leal, in A Sede da Mulher (e  de um Homem), (editado no Brasil, s/ data)

Arte de  Chelin Sanjuan