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Vejo o teu rosto quotidiano

Outubro 26, 2014

Vejo o teu rosto quotidiano
como se a penumbra
tivesse olhos
ou como se as raízes pudessem ver
através da sombra

Estou no húmus da casa
no húmus do silêncio
e vejo através das vértebras
de uma luz subterrânea
o teu rosto de terra

Há sempre muros e muros
e o nevoeiro dos dias
mas tu és a chama
sobre a mesa posta

Vem a noite e as serpentes
envolvem as lâmpadas
e reduzem o espaço
Cada um procura
na palma das mãos
os grãos verdes do mar
O monstro vago da noite
desfoca o nosso olhar
e os joelhos vacilam
O teu rosto persiste
como se o teu torso fosse
o tronco de uma árvore

António Ramos Rosa, in O Teu Rosto (Pedra Formosa Edições, 1994), in Antologia Poética ,

Selecção, Prefácio e Bibliografia de Ana Paula Coutinho Mendes (Pub. Dom Quixote, 2001)

Arte de Olga Akasi

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