Archive for Novembro, 2014

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Teu corpo principia

Novembro 7, 2014

Dou-te
um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

António Ramos Rosa, in Estou Vivo e Escrevo Sol (1966),

in Antologia Poética (Pub. Dom Quixote, 2001)

Arte de Jean-Pierre Ceytaire

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Dilúvio de chamas

Novembro 6, 2014

Desejo-te única como
a palavra: fogo que um verso procura
deter: nas mãos a água ilude
a boca e a sede pede mais:
nos lábios a pérola cai
do orvalho todas as manhãs: a pétala
o corpo adorna o poema
veemente: dilúvio de chamas
prestes a barca
urgente do azul desmedido

David Rodrigues in Dilúvio de Chamas

(ed. de ASS. dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, 1985)

Arte de Caroline Westerhout

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Sou-te ninho

Novembro 4, 2014

No teu rosto
repousa a madrugada
de fatigados pássaros

Poisas a cabeça
no meu peito
onde ainda há pouco
o vento cantava

e os meus seios eram eco
de teus incontidos desejos

Sou-te ninho

Fátima Guimarães

Arte de Christian Schloe

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Acaso

Novembro 2, 2014

Acaso, oh amada,
a aurora
vestiu‐se de ouro
para competir com tua nudez?

Gonçalo Salvado, in Seminal (Lua de Marfim, 2012)

Arte de Rima Salamoun