Archive for the ‘António Botto’ Category

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Se me deixares, eu digo

Maio 30, 2013

Se me deixares, eu digo

O contrário a toda a gente;

E, neste mundo de enganos,

Fala verdade quem mente.

Tu dizes que a minha boca

Já não acorda desejos,

Já não aquece outra boca,

Já não merece os teus beijos;

Mas, tem cuidado comigo,

Não procures ser ausente:

– Se me deixares, eu digo

O contrário a toda a gente.

António Botto

Imagem: Ingrid Tusell

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Ouve, meu anjo…

Janeiro 25, 2009

Ouve, meu anjo:

Se eu beijasse a tua pele?

Se eu beijasse a tua boca

Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se

Num sorriso desdenhoso;

Mas aí!, A carne do assassino

É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,

Misterioso, gentil,

Deu-me o seu corpo doirado

Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,

A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando

Os olhos para sonhar –

E eu lentamente morria

Como um perfume no ar!

António Botto

Imagem: Helena Abreu

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Se fosses

Janeiro 23, 2009

Se fosses luz serias a mais bela

De quantas há no mundo: – a luz do dia!

– Bendito seja o teu sorriso

Que desata a inspiração

Da minha fantasia!

Se fosses flor serias o perfume

Concentrado e divino que perturba

O sentir de quem nasce para amar!

– Se desejo o teu corpo é porque tenho

Dentro de mim

A sede e a vibração de te beijar!

Se fosses água – música da terra,

Serias água pura e sempre calma!

– Mas de tudo que possas ser na vida,

Só quero, meu amor, que sejas alma!

António Botto

Imagem: Alexander Sulimov

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Quanto, quanto me queres?

Dezembro 8, 2008

Quanto, quanto me queres? – perguntaste

Numa voz de lamento diluída;

E quando nos meus olhos demoraste

A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;

Lá fora da luz do Sol já combalida

Era um sorriso aberto num contraste

Com a sombra da posse proibida…

Beijámo-nos então, a latejar

No infinito e pálido vaivém

Dos corpos que se entregam sem pensar…

Não perguntes, não sei – não sei dizer:

Um grande amor só se avalia bem

Depois de se perder.

António Botto

Arte de Malcolm Liepke


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Anda vem

Novembro 27, 2008

Anda vem… porque te negas,

Carne morena, toda perfume?

Porque te calas,

Porque esmoreces,

Boca vermelha, rosa de lume?

Se a luz do dia

Te cobre de pejo,

Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo

De contigo adormecer

Devagarinho, sentindo

O aroma e o calor

Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:

Entrega-te, sê contente!

Nem todo o prazer

Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!… Dá-me o teu corpo

Em troca dos meus desejos…

Tenho saudades da vida!

Tenho sede dos teus beijos!

António Botto

Arte de Eliot Allsop

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Se duvidas que teu corpo

Outubro 11, 2008

Se duvidas que teu corpo

Possa estremecer comigo –

E sentir

O mesmo amplexo carnal,

– desnuda-o inteiramente,

Deixa-o cair nos meus braços,

E não me fales,

Não digas seja o que for,

Porque o silêncio das almas

Dá mais liberdade

às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar

Ainda é pouco

Para te dar a certeza

Deste desejo sentido,

Pede-me a vida,

Leva-me tudo que eu tenha

Se tanto for necessário

Para ser compreendido.

António Botto

Imagem: Edith Dora Rey