Archive for the ‘Eugénio de Andrade’ Category

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Enquanto

Junho 29, 2012

Enquanto

um calor mole nos tira a roupa

e mesmo nus sobre a cama

os corpos continuam a pedir água

em vez doutro corpo,

penso no tempo em que o suor

e a saliva e o odor e o esperma

faziam dessa agonia

a alegria

a que chamávamos amor.

Eugénio de Andrade

Imagem: Nikolay Antonov

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É quando a chuva cai

Março 28, 2012

É quando a chuva cai,

é quando olhado devagar

que brilha o corpo.

Para dizê-lo a boca

é muito pouco,

era preciso que também

as mãos vissem esse brilho,

dele fizessem

não só a música,

mas a casa.

Todas as palavras

falam desse lume,

sabem à pele

dessa luz molhada.

Eugénio de Andrade

Imagem: Charlotte Atkinson

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O silêncio

Maio 1, 2011

Quando a ternura

parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,

inda demora,

quando azuis irrompem

os teus olhos

e procuram

nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras

desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade

Imagem: Peter Bell

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Surdo

Junho 17, 2009

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;

amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar

surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

Imagem: Brenda York

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Impetuoso, o teu corpo é como um rio…

Maio 10, 2009

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.

Eugénio de Andrade

Imagem: Kazuya Akimoto

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Foi para ti

Janeiro 18, 2009

Foi para ti que criei as rosas

Foi para ti que lhes dei perfume

Para ti rasguei ribeiros

e dei às romãs a cor do lume.

Eugénio de Andrade

Imagem: Misti Pavlov

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Cala-te, a luz arde entre os lábios

Dezembro 31, 2008

Cala-te, a luz arde entre os lábios,

e o amor não contempla, sempre

o amor procura, tacteia no escuro,

subo por ti de ramo em ramo,

respiro rente à tua boca,

abre-se a alma à língua, morreria

agora se mo pedisses, dorme,

nunca o amor foi fácil, nunca,

também a terra morre.

Eugénio de Andrade

Arte de Anna Razumovskaya

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Despe-te

Dezembro 12, 2008

Despe-te

como o orvalho

na concha da manhã.

Eugénio de Andrade

Arte por  Igor Marckenko

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O amor

Dezembro 2, 2008

Estou a amar-te como o frio

corta os lábios.

A arrancar-te a raiz

ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,

de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas

a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos

o itinerário da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

Eugénio de Andrade

Imagem: Eiko Ojala

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Madrigal

Outubro 23, 2008

Agora

Onde te despes

É Verão:

Tudo colhe

e afaga

O que teu corpo tem

de concha

Molhada

Eugénio de Andrade

Arte de Lauri Blank