Archive for the ‘Joaquim Pessoa’ Category

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Poema quadragésimo sexto

Dezembro 8, 2013

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti.
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.

Joaquim Pessoa, in GUARDAR O FOGO (Ed. Edições Esgotadas, 2013)

Arte por Anke Merzbach

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Dia 164

Outubro 26, 2013

Uma fogueira é sempre uma celebração entre o ar e outra matéria.
Vem. Vamos arder nos braços um do outro. Depois, as cinzas
hão-de espalhar-se pela memória desta noite.

Joaquim Pessoa, in ANO COMUM (Litexa, 2011)

Arte por Erika Herazo

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Tu ensinaste-me a fazer uma casa

Setembro 25, 2013

Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Joaquim Pessoa, in OS OLHOS DE ISA (Litexa, 1983)

Imagem:  Georgeta Blanaru

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Nenhuma morte apagará os beijos

Agosto 21, 2013

Eu estava tão perto de ti que
tenho frio ao pé dos outros.

Paul ÉLUARD

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada

desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa, in OS OLHOS DE ISA, (ed Esp. Litexa, 1982)

Imagem: Aída Figueiredo

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Poema quinquagésimo

Julho 15, 2013

Tanto é o amor de que a boca me alimenta
que eu amo as sílabas inchadas de ternura,
rebentos sanguíneos de uma fala breve e inquiridora
que quer saber de tudo, o poema, o livro, a noite e até
do fogo dentro das crianças, dos archotes que me guiam
pelas grutas do pensamento e pelas dunas claras
do teu corpo em repouso.
Nelas as minhas mãos aguardam o amanhecer
quando é mais doloroso chamar-te mulher ou mãe
ou fêmea. Ou roseira.
Na minha insónia a noite não é mais do que terra
sedenta e suplicante. A que, de bruços me pede amor
e me oferece amor, de rosto magoado pela paixão antiga
de uma vida cintilante mas cruel. Amo-te, amo-me
até aos ossos. E por este ofício de cantar-te eu daria
a minha vida, para encher, embriagado, a tua vida
de versos, de uma luz feliz.
Imagino-te tremendo nos antigos caminhos
enquanto a minha idade mergulha no mais fundo
das coisas que um dia me dirás.
Hoje, nada existe sem ti, sem a lucidez do dia,
tudo és tu, tudo é esta vontade de pertencer-te assim
como quem se entrega e se consome nesse fogo árduo
que os meus dedos acendem e a tua carne alimenta
quando a dor são palavras, nada mais que palavras,
e as palavras se imolam devagar.
Com uma fome ruiva, roubas da minha boca
os pães ainda quentes para dar aos versos
e a água prenhe e límpida para dar aos beijos.

Joaquim Pessoa

Imagem: Kurt van Wagner

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Poema nonagésimo oitavo

Junho 16, 2013

Os sinos da borboleta acordam a primavera

e nos campos molhados movem-se sapos lentamente

com um olhar desajeitado que desafia as horas.

A atarefada cotovia prepara o ninho entre espigas jovens

que endurecem já a sua alegria. O mês do amor

está a chegar, carregando água azul das trovoadas

e um sol comprometido com o verão.

Repara como o silêncio insistiu esta manhã

em deixar que os amantes continuassem a dormir

abraçados, na sua cama de palavras.

Joaquim Pessoa

Imagem: Nicolai Balyshev

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Poema septuagésimo nono

Junho 4, 2013

Amachuco o azul com toda a força

até ser feliz. E beijo a minha própria boca

com as tuas palavras, frutos de uma paixão

que nunca me separou do fogo, mesmo quando

as minhas mãos alisam a pele do mar

para dentro de ti encurtar a distância

que me separa já da juventude.

O azul é assim. Um fruto mágico

das árvores do sol, que alimenta e enlouquece

os pássaros do amor, esses mensageiros

dos versos que te escrevo quando

é insuportável a dor da tua ausência.

Joaquim Pessoa

Imagem: Maria Pace-Wynters