Archive for the ‘Joaquim Pessoa’ Category

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Nenhuma morte apagará os beijos

Agosto 21, 2013

Eu estava tão perto de ti que
tenho frio ao pé dos outros.

Paul ÉLUARD

Nenhuma morte apagará os beijos
e por dentro das casas onde nos amámos ou pelas ruas
[clandestinas da grande cidade livre
estarão para sempre vivos os sinais de um grande amor,
esses densos sinais do amor e da morte
com que se vive a vida.

Aí estarão de novo as nossas mãos.
E nenhuma dor será possível onde nos beijámos.
Eternamente apaixonados, meu amor. Eternamente livres.
Prolongaremos em todos os dedos os nossos gestos e,
profundamente, no peito dos amantes, a nossa alma líquida
[e atormentada

desvenderá em cada minuto o seu segredo
para que este amor se prolongue e noutras bocas
ardam violentos de paixão os nossos beijos
e os corpos se abracem mais e se confundam
mutuamente violando-se, violentando a noite
para que outro dia, afinal, seja possível.

Joaquim Pessoa, in OS OLHOS DE ISA, (ed Esp. Litexa, 1982)

Imagem: Aída Figueiredo

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Poema quinquagésimo

Julho 15, 2013

Tanto é o amor de que a boca me alimenta
que eu amo as sílabas inchadas de ternura,
rebentos sanguíneos de uma fala breve e inquiridora
que quer saber de tudo, o poema, o livro, a noite e até
do fogo dentro das crianças, dos archotes que me guiam
pelas grutas do pensamento e pelas dunas claras
do teu corpo em repouso.
Nelas as minhas mãos aguardam o amanhecer
quando é mais doloroso chamar-te mulher ou mãe
ou fêmea. Ou roseira.
Na minha insónia a noite não é mais do que terra
sedenta e suplicante. A que, de bruços me pede amor
e me oferece amor, de rosto magoado pela paixão antiga
de uma vida cintilante mas cruel. Amo-te, amo-me
até aos ossos. E por este ofício de cantar-te eu daria
a minha vida, para encher, embriagado, a tua vida
de versos, de uma luz feliz.
Imagino-te tremendo nos antigos caminhos
enquanto a minha idade mergulha no mais fundo
das coisas que um dia me dirás.
Hoje, nada existe sem ti, sem a lucidez do dia,
tudo és tu, tudo é esta vontade de pertencer-te assim
como quem se entrega e se consome nesse fogo árduo
que os meus dedos acendem e a tua carne alimenta
quando a dor são palavras, nada mais que palavras,
e as palavras se imolam devagar.
Com uma fome ruiva, roubas da minha boca
os pães ainda quentes para dar aos versos
e a água prenhe e límpida para dar aos beijos.

Joaquim Pessoa

Imagem: Kurt van Wagner

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Poema nonagésimo oitavo

Junho 16, 2013

Os sinos da borboleta acordam a primavera

e nos campos molhados movem-se sapos lentamente

com um olhar desajeitado que desafia as horas.

A atarefada cotovia prepara o ninho entre espigas jovens

que endurecem já a sua alegria. O mês do amor

está a chegar, carregando água azul das trovoadas

e um sol comprometido com o verão.

Repara como o silêncio insistiu esta manhã

em deixar que os amantes continuassem a dormir

abraçados, na sua cama de palavras.

Joaquim Pessoa

Imagem: Nicolai Balyshev

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Poema septuagésimo nono

Junho 4, 2013

Amachuco o azul com toda a força

até ser feliz. E beijo a minha própria boca

com as tuas palavras, frutos de uma paixão

que nunca me separou do fogo, mesmo quando

as minhas mãos alisam a pele do mar

para dentro de ti encurtar a distância

que me separa já da juventude.

O azul é assim. Um fruto mágico

das árvores do sol, que alimenta e enlouquece

os pássaros do amor, esses mensageiros

dos versos que te escrevo quando

é insuportável a dor da tua ausência.

Joaquim Pessoa

Imagem: Maria Pace-Wynters

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Estou mais perto de ti porque te amo

Dezembro 31, 2011

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nesta noite sei apenas dos teus gestos
e procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

Joaquim Pessoa

Imagem: Vishalmisra

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Eu quero apenas amar-te lentamente

Julho 20, 2011

Eu quero apenas amar-te lentamente

Como se todo o tempo fosse nosso
Como se todo o tempo fosse pouco
Como se nem sequer houvesse tempo.

Joaquim Pessoa

Imagem: Jiri Borsky

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Bastava-nos amar

Janeiro 8, 2009

Bastava-nos amar. E não bastava

o mar. E o corpo? O corpo que se enleia?

O vento como um barco: a navegar.

Pelo mar. Por um rio ou uma veia.

Bastava-nos ficar. E não bastava

o mar a querer doer em cada ideia.

Já não bastava olhar. Urgente: amar.

E ficar. E fazermos uma teia.

Respirar. Respirar. Até que o mar

pudesse ser amor em maré cheia.

E bastava. Bastava respirar

a tua pele molhada de sereia.

Bastava, sim, encher o peito de ar.

Fazer amor contigo sobre a areia.

Joaquim Pessoa

Arte de A. Sigov

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Perfil de primavera

Dezembro 17, 2008

Perfil de primavera

Nas mãos que eu ergo acima desta ausência.

O meu sangue desperta, cria raízes no teu sangue

Nos jardins desertos da nossa solidão.

As minhas mãos, as tuas mãos, os corpos abraçados

E a única cidade construída para o nosso amor:

Nua, inquieta.

Clandestina.

A tua boca no meu peito. Os beijos

Demorados. E todos os silêncios.

As ruas que eu abri no teu olhar

Começam nos meus dedos.

Vem,

Eu amo-te.

Joaquim Pessoa

Arte de Csaba Markus

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Cada vez

Dezembro 16, 2008

Cada vez nos temos mais apenas

um ao outro.

Joaquim Pessoa

Arte de Willem Haenraets

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De esperas construímos o amor…

Outubro 25, 2008

De esperas construímos o amor intenso e súbito

que encheu as tuas mãos de sol e a tua boca de beijos.

Em estranhos desencontros nos amamos.

Havia o rio mas sempre ficávamos na margem.

Eu tocava o teu peito e os teus olhos e, nas minhas mãos,

a tarde projectava as suas grandes sombras

enquanto as gaivotas disputavam sobre a água

talvez um peixe inquieto, algo que nunca pudemos ver.

As nossas bocas procuravam-se sempre, ávidas e macias

E por muito tempo permaneciam assim, unidas,

machucando-se, torturando as nossas línguas quase enlouquecidas.

Depois olhávamo-nos nos olhos.

No mais profundo silêncio.

E, sem palavras,partíamos com as mãos docemente amarradas

e os corações estoirando uma alegria breve

Quando a noite descia apaixonada

Como o longo beijo da nossas despedida.

Joaquim Pessoa

Arte de WojciechFus