Archive for the ‘Maria Teresa Horta’ Category

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Paixão

Julho 29, 2014

Com a paixão faço
e armo
a construir-me no excesso

Apunhalo o coração
enveneno
o peito aberto

A paixão é meu
destino
meu final e meu começo

Morrer de amor
e de amar
é a morte que eu mereço

Maria Teresa Horta, in As palavras do corpo

Arte de Andre-Kohn

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Quantas vezes te digo

Fevereiro 9, 2014
Quantas vezes te digo
quantas vezes…
que és para mim
o meu homem amado?
O que chega primeiro
e só parte por vezes
antes de perceber
que já tinhas voltado
Quantas vezes te digo
quantas vezes…
que és para mim
o meu homem amado?
Aquele que me beija
e me possui
me toma e me deixa
ficando a meu lado
Quantas vezes te digo
quantas vezes…
que és para mim
o meu homem amado?
Que sempre me enloquece
e só aí percebo
como estava perdida
sem te ter encontrado

Maria Teresa Horta, in 366 poemas que falam de amor

Arte por Alfredas Jurevicius

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Post scriptum

Janeiro 2, 2014

Afasto de ti com
raiva surda

o corpo
as mãos
o pensamento

e apago secreta
uma a uma
as velas acesas do teu vento

liberta ponho o corpo
em seu lugar
visto a cidade
penteio um rio sedento

penso ganhar
e fujo
e não entendo

penso dormir
mas não consigo
o tempo

E cede-se o vazio
sobre o meu ventre

e segue-se a saudade
em seu sustento

E digo este meu vício
dos teus olhos
de um verde tão lento
muito lento

Se penso que te deixo
já te quero

Se penso que recuso
já te anseio

Se penso que te odeio
já te espero

e torno a oferecer-te
o que receio

Se penso que me calo
já te grito

Se penso que me escondo
já me ofereço

Se penso que não sinto
é porque minto

Se pensas que me olhas
já estremeço.

Maria Teresa Horta, 

in MINHA SENHORA DE MIM ( D. Quixote, 1971), in POESIA REUNIDA (D. Quixote, 2009)

Imagem: Cayetano De Arquer Buigas

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Desejo

Dezembro 27, 2013

Adormeço tropeçando
no desejo
encostada ao teu pescoço

Respirando o teu dormir
vou bebendo devagar
o ácido cheiro do teu corpo.

Maria Teresa Horta, em Poesia Reunida

Arte por  Hesther van Doornum

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Um outro tanto

Dezembro 7, 2013

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia

é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia

perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia

poder amar-te ainda
um outro tanto

Maria Teresa Horta, in “Inquietude” quasi (06)

Arte por Stefan Kuhn

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Desperta-me de noite

Setembro 17, 2013

Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vício as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.

Maria Teresa Horta

Imagem:  Richard Young

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Amêndoa amarga

Julho 29, 2013

Este travo inteiro a amêndoa amarga

A ameixa a doce a ferver no tacho

Esse travo na língua a fermentar no corpo

A febre a nascer a crescer debaixo

Em baixo… a saia a subir nas coxas e esse cheiro mais grosso se entreabro

Asa pernas os lábios e o gosto onde o sabor da amêndoa se torna mais amargo

É esse o momento o instante exacto em que tudo se prende ao gesto sem sentido

A calda no ponto deixa a língua em brasa

E eu tiro pela cabeça o meu vestido

Maria Teresa Horta, in DESTINO (Quetzal, 1998), in AS PALAVRAS DO CORPO (D. Quixote, 2012)

Imagem: Autor desconhecido

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O gato lembra-se de ti nos intervalos

Junho 6, 2013

O gato lembra-se de ti nos intervalos. Espera
de olhos acesos as histórias que nos contas.
Passeia-se inquieto sobre o meu parapeito e eriça
o pêlo, cúmplice, quando pressente que regressas.

Chegas sempre de noite. Sei quem és e ao que vens
e ofereço-te o silêncio de um pequeno quarto recuado,
as sombras das traseiras na minha pele, o tempo
de repetir um gesto inevitável. Ouço-te contar
a mesma lenda com lábios sempre novos. Aprendo-a
e esqueço-a. Nunca a saberemos de cor, o gato ou eu.

Depois partes. Levas contigo a tua voz, mas a música
fica. Eu fecho as portadas devagar. O gato mia baixo
à janela. Ninguém acena: guardamos com os outros
o segredo das tuas visitas. Ambos. O gato e eu.

Maria do Rosário Pedreira

Imagem: Marie Fox

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No silêncio que guardo quando partes

Maio 19, 2013

No silêncio que guardo
quando partes

que escondes sob os
dedos

que se prende

que me deixa no corpo
este calor
da falta do teu corpo como sempre

Maria Teresa Horta

Imagem: Jagannath Paul

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Insubmissão

Março 9, 2013

Somos corsárias
febris
… por areias dos desertos

Seguimos estrelas cadentes
e montando os nossos sonhos
cumprimos roteiros incertos

Vamos atrás das paixões
com o faim à cintura
e a pena no coração

Para escrevermos poesia
invertendo o cantochão

Com a arte da insídia
olhamos o horizonte alucinando
os oásis, abismando sortilégios

Escutamos os clamores
os oceanos celestes
nos silêncios dos desertos

Buscamos os infiéis
com olhos de expiação

Somos hábeis e seguras
ambíguas, doces, cruéis
nós partimos sem regresso

Ora flibusteiras
em horas de cerração
entre a paixão e o inverso

Ora piratas do limbo
abandonando os arquétipos

A cimitarra à cintura
e o júbilo no coração
pelo avesso dos versos

Somos a rosa e o espinho
a sombra no seu desvão

Entre o fuso e o enigma
a navalha entreaberta
e os nevoeiros secretos

Somos corsárias
sonhando
nas areias dos desertos

Maria Teresa Horta

Imagem: Eric Lèbegue