Archive for the ‘Miguel Afonso Andersen’ Category

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Ter-te

Janeiro 25, 2015

Ter-te longe
e desejar-te aqui,
onde o frémito do corpo acontece.
Aqui, lugar onde
o vício dos olhos e das mãos me inquieta.

Ah, ter-te perto
suster a respiração,
cerrar os olhos
e deixar que tudo comece
e acabe em ti.

Ensaiar o voo da águia
e suavemente planar sobre a superfície
sinuosa do teu corpo perfeito
no asa-delta da paixão.

Ter-te perto,
sentir o perfume da tua presença
pelo calor do corpo,
pela claridade dos olhos
e pensar
que o sol e a alegria
de cada manhã,
nascem exatamente em ti.

Miguel Afonso Andersen, in “Circum-Navegações” (Raiz perturbada)

Arte de Claude Theberge

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Soletro no teu corpo

Novembro 21, 2014

Soletro no teu corpo
o abecedário
do prazer

pelo toque
no tacto dos dedos

num Braille imaginário,
picotado
no sabor e no saber
das palavras
e dos seus segredos.

Miguel Afonso Andersen in Da volúpia, os sinais

Arte de Philippe Loubat

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Descendo mansamente o rio

Agosto 21, 2014

Descendo mansamente o rio
como quem amargamente saboreia a vida
e de repente
do murmúrio espantado das águas
da serpenteada surpresa das margens
a descoberta de ti.

Ancorada na suspensão das vagas
repousada no líquido leito da corrente,
Ilha. Teu corpo. Mulher.
Verdejante e íngreme perfil.
Prenúncio e íntimo arrepio.

Meu pronto e perpétuo desassossego
turbilhão que me abala o corpo, raiz
perturbada na clara exaltação do ego.

E tanto, tanto mar, para ser feliz.

Miguel Afonso Andersen, in Circum-Navegações”(Raiz perturbada ou a navegação do amor)

Arte de Silvia Pavlova

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Nos teus lábios

Agosto 18, 2014

Nos teus lábios
as palavras sabem-me húmidas
como frutos matinais.

Quando clamas pelo meu nome
e soletras as suas consoantes e vogais
ele atinge a doçura ébria dum afago.

Às vezes vislumbro a tua língua,
gata dolente e espreguiçada na pronuncia
serpente serpenteando-me de óbvios desejos.

Eu gosto dela.
Viajo nela, cavalgo nela.
Faço amor com ela.

Nela, com ela atinjo os píncaros
das palavras atordoadas
dos gemidos mais gemidos
dos ais mais sentidos.

A tua língua é a minha casa
o meu chão,
a minha lavra.
É nela que aguardo
a rendição
aflita da palavra.

Miguel Afonso Andersen, in O início das águas

Arte de Santiago Carbonell

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com ensejo e deleite

Julho 8, 2014

Mergulho,
afundo-me,
fundo-me
confundo-me
e sorvo
com ensejo
e deleite

a água
de coco
do leito
louco
do teu desejo

Miguel Afonso Andersen, O início da águas (2013)

Arte por Iwona Zawadzka

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Um breve sopro

Maio 4, 2014

Um breve sopro,
talvez uma ténue aragem
um rumor de pássaro iniciando um voo
quiçá um nenúfar suspenso na aguagem
do rio desfalecido que já sou.

Um leve, quase impercetível pulsar
na fímbria esquecida do coração
um velho mas renovado despertar
no tardio florir do desejo e da paixão.

Um instante riscado no cristal do tempo
talvez um tempo vestido pelo avesso
quem sabe se o amargo deslumbramento
que sinto e desencanto em cada verso.

Miguel Afonso Andersen, in A aparição de Sofia

Arte por  Delawer Omar