Archive for the ‘Nuno Júdice’ Category

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Amor

Outubro 6, 2012

Um poema, dizes, em que
o amor se exprima, tudo
resumindo em palavras.

Mas o que fica
nas palavras
daquilo que se viveu?

Um pó de sílabas,
o ritmo pobre da
gramática, rimas sem nexo…

Nuno Júdice

Imagem: Trine Stasica

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Um rosto

Setembro 23, 2012

Apenas

uma coisa inteiramente transparente:

o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte

nos teus olhos, que pude ver ainda

através de pálpebras semicerradas, pestanas húmidas

da geada matinal, uma névoa de palavras murmuradas

num silêncio de hesitações. Há quanto tempo,

tudo isto? Abro o armário onde o tempo antigo

se enche de bolor e fungos; limpo os papéis,

cartas que talvez nunca tenha lido até ao fim, foto-

grafias cuja cor desaparece, substituindo os corpos

por manchas vagas como aparições; e sinto, eu

próprio, que uma parte da minha vida se apaga

com esses restos.

Nuno Júdice

Imagem: Melody Cleary

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Sonhei contigo

Julho 11, 2012

Sonhei contigo embora nenhum sonho

possa ter habitantes tu, a quem chamo

amor, cada ano pudesse trazer

um pouco mais de convicção a

esta palavra. É verdade o sonho

poderá ter feito com que, nesta

rarefacção de ambos, a tua presença se

impusesse – como se cada gesto

do poema te restituísse um corpo

que sinto ao dizer o teu nome,

confundindo os teus

lábios com o rebordo desta chávena

de café já frio. Então, bebo-o

de um trago o mesmo se pode fazer

ao amor, quando entre mim e ti

se instalou todo este espaço –

terra, água, nuvens, rios e

o lago obscuro do tempo

que o inverno rouba à transparência

da fontes. É isto, porém, que

faz com que a solidão não seja mais

do que um lugar comum saber

que existes, aí, e estar contigo

mesmo que só o silêncio me

responda quando, uma vez mais

te chamo.

Nuno Júdice

Imagem: Jean Claude Dresse

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Subitamente surge…Tem o teu rosto

Julho 5, 2012

O paraíso terrestre é uma flor verde.

As árvores abrem-se ao meio.

O que é sucessivo perde-se.

Se o tempo modifica os seres e os objectos

eu sinto a diferença e gasto-me.

O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada

uma folha branca à transparência da lâmpada.

Soam então os barulhos. Soam

de dentro das janelas,

de dentro das caixas fechadas há mais tempo,

de dentro das chávenas meias de café.

É tarde e és tu,

acima de tudo,

entre a manhã e as árvores,

à luz dos olhos,

à luz só do límpido olhar.

Nuno Júdice

Imagem: Peter Harskamp

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Amanhã

Junho 25, 2010

Estar contigo ao acordar, ver como
se abrem as tuas pálpebras, cortinas
corridas sobre o sonho, sacudir dos
teus lábios o silêncio da noite para
que um primeiro riso me traga o dia:

assim, amor, reconheço a vida que
entra contigo pela casa, escancara
janelas e portas, deixa ouvir os pássaros
e o vento fresco da manhã, até que voltas
para junto de mim, e tudo recomeça.

Nuno Júdice

Arte de Christine Comyn

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Alegoria floral

Março 8, 2010

Um dia em que a mulher nasça do caule da roseira
que cresce no quintal; ou um dia em que a nuvem
desça do céu para vestir de névoa os seus
seios de flor: seguirei o caminho da água nos
canteiros que me levam ao caule, e meter-me-ei
pela terra em busca da raíz.

Nesse dia em que os cabelos da mulher se
confundirem com os fios luminosos que o sol
faz passar pela folhagem; e em que um perfume
de pólen se derramar no ar liberto da névoa:
procurarei o fundo dos seus olhos, onde corre
uma tranparência de ribeiro.

Um dia irei tirar essa mulher de dentro da flor,
despi-la das suas pétalas, e emprestar-lhe o véu
da madrugada. Então, vendo-a nascer com o dia,
desenharei nuvens com a cor dos seus lábios, e
empurrá-las-ei para o mar com o vento brando
da sua respiração.

Depois, cobrirei essa mulher que nasceu da roseira
com o lençol celeste; e vê-la-ei adormecer, como
um botão de rosa, esperando que a nuvem desça
do céu para a roubar ao sonho da flor.

Nuno Júdice

Imagem: Enrico Maria Cartei

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Paradoxo Ornitológico

Janeiro 18, 2010

Um dia, um homem transformou-se em pássaro e

voou à volta da mulher que esperava que um

pássaro se transformasse em homem.

Nuno Júdice

Imagem: Wendy Ryan

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Acordo Ortográfico

Janeiro 17, 2010

Gosto do teu rosto exacto,

com o cê bem desenhado,

mesmo quando não se vê,

para te pôr, como laço

nos cabelos, o circunflexo

em que nenhum traço há-de

sair, mesmo que um pacto

roube o pê nessa pose

de pura concepção.

Nuno Júdice

Imagem: Elisa Gulminelli

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Leio o amor

Dezembro 12, 2009

Leio o amor no livro

da tua pele; demoro-me em cada

sílaba, no sulco macio

das vogais, num breve obstáculo

de consoantes,

em que os meus dedos

penetram, até chegarem

ao fundo dos sentidos. Desfolho

as páginas que o teu desejo me abre,

ouvindo o murmúrio de um roçar

de palavras que se

juntam, como corpos, no abraço

de cada frase. E chego ao fim

para voltar ao princípio, decorando

o que já sei, e é sempre novo

quando o leio na tua pele.

Nuno Júdice

Imagem: Isabel Lhano

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Até ao fim

Dezembro 2, 2009

Mas é assim o poema: construído devagar,

palavra a palavra, e mesmo verso a verso,

até ao fim. O que não sei é

como acabá-lo; ou, até, se

o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:

puxo o teu corpo

para o meio dele, deito-o na cama

da estrofe, dispo-o de frases

e de adjectivos até te ver,

tu,

o mais nu dos pronomes. Ficamos

assim. Para trás, palavras e versos,

e tudo o que

não é preciso dizer:

eu e tu, chamando o amor

para que o poema acabe.

Nuno Júdice

Imagem: YDK Morimoe