Archive for the ‘Paulo Eduardo Campos’ Category

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Parte comigo

Junho 24, 2014

Parte comigo,
Para uma praça vazia
Que acorda antes da cidade,
Onde as estrelas
Se entrelaçam nos nossos dedos.
Parte comigo,
Sentir o sol beijar-nos a pele,
Sentir que o nosso tempo
Existe para além do tempo todo
Onde nos perdemos continuamente.
Parte comigo,
Onde não posso encontrar mais
Que o teu rosto, que o teu sorriso,
Que o teu nome murmurado letra a letra,
Pétala a pétala.
Parte comigo,
Onde a noite adormece nos teus braços,
Onde nos misturamos como brisas e beijos,
Na praia onde as ondas nos imitam.
Parte comigo,
Até onde nos leve o último raio de sol do dia

Paulo Eduardo Campos, in Na Serenidade dos rios que enlouquecem

(Amores Perfeitos, 2005)

Arte por Stefan Kuhn

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Quarto III

Abril 29, 2014

as mãos pousadas sobre o peito.
só o silêncio se ouve.
no véu da noite,
o silêncio dos amantes de olhar suspenso
cresce pelos seus corpos
como trepadeiras nas paredes
das casas em ruínas.
o desejo acontece e os olhos,
brilhantes e cúmplices,
aguardam que as mãos escondidas se toquem,
que explorem o corpo,
como pequenos pássaros inquietos.

de mãos pousadas sobre o peito,
só a solidão se sente,
quando no véu da noite
os amantes se entregam num só corpo.

Paulo Eduardo Campos, in A Casa dos Archotes (Lua de Marfim, 2011)

Arte por Carrie Vielle

 

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IV

Janeiro 16, 2014

por vezes crio um deserto só para mim
e sinto-te silêncio esquecido nos meus lábios
por não querer recordar a linguagem do teu corpo
esquecido dentro do meu.

Paulo Eduardo Campos,

in Poetas da Nossa Terra, Vários autores, Ed. Lua de Marfim, 2013

Arte por Andrew Ferez

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Sei que o silêncio morde a minha boca

Setembro 1, 2013

Sei que o silêncio morde a minha boca.
Hoje, na melancolia de um fim de tarde,
Chamei por uma estrela solitária.
Essa que morreu antes de chamar pelo teu nome.
Sei hoje que a tua ausência
É a voz do silêncio do meu corpo,
O tempo que faltou ao nosso encontro,
Se pudesse ser outro que não eu
Talvez me pudesse despir de antigas mortes
E olhar-te na madrugada súbita dos teus olhos
E dizer-te que amanhã
É sempre o dia em que te procuro.
Amanhã, será sempre o dia em que te digo
“Amo-te”.

Paulo Eduardo Campos, 

in NA SERENIDADE DOS RIOS QUE ENLOUQUECEM (Amores Perfeitos, 2005)

Imagem: Carrie Vielle