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As tuas mãos

Novembro 11, 2009

Como podem tuas mãos ser em mim fogo e água

E atearem labaredas e correrem como um rio

E matarem minha sede e serem fogo e arrepio

E serem chama e calor

E serem húmidas brasas

E serem sólidos os teus dedos

E em mim nascerem asas

E voar nas tuas mãos

Fogo, água e arrepio

Tremer ardendo de paixão

E desfazer-me em gotas de água

Entre os teus dedos

Nas tuas mãos

Minha prisão e minhas asas.

Encandescente

Imagem: Meneses Martins

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Não basta

Novembro 10, 2009

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Não.

Não basta saber que existes.

É como estar sedenta

E saber que existe água

É como estar faminta

E saber que há pão

É doer, definhar

E saber que existe um bálsamo.

Não.

Não basta saber que existes

É preciso que estejas

Encandescente

Imagem: Xu Bin

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Guarda-me

Novembro 8, 2009

Deixo sempre uma parte de mim contigo

E a ti volto para a reencontrar

Mas, quando me queres devolver

A parte de mim que contigo fica

Fecho a mão

Não a aceito

Digo:

- Guarda-me mais um pouco

Para ter um motivo para voltar.

Encandescente

Imagem: John Graham

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Cicuta

Novembro 7, 2009

Debruça-te, amor
e colhe-me a manhã

bebe-me o hálito
morde-me os gemidos

eu sou o copo
de cicuta
(o vinho)

com o qual envenenas
os sentidos

Maria Teresa Horta

Imagem: Sergey Kisel

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Wonderwall

Novembro 5, 2009

“Today is gonna be the day

That they’re gonna throw it back to you

By now you should’ve somehow

Realized what you gotta do

I don’t believe that anybody

Feels the way I do about you now…”

Wonderwall, Oasis

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Se partires

Novembro 3, 2009

Se partires, não me abraces – a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces –

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém – longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.

Maria do Rosário Pedreira

Imagem: Nichola Moss

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Soneto do amor difícil

Novembro 1, 2009

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

David Mourão-Ferreira

Imagem:  William C. Bryant

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Quem me quiser

Outubro 25, 2009

Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantigas dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
à saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber a coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.

Rosa Lobato de Faria
Imagem: Hessam Abrishami

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Se eu pudesse… (o soneto que só errado ficou certo)

Outubro 22, 2009

Se eu pudesse iluminar por dentro as palavras de todos os dias
para te dizer, com a simplicidade do bater do coração,
que afinal ao pé de ti apenas sinto as mãos mais frias
e esta ternura dos olhos que se dão.

Nem asas, nem estrelas, nem flores sem chão
- mas o desejo de ser a noite que me guias
e baixinho ao bafo da tua respiração
contar-te todas as minhas covardias.

Ao pé de ti não me apetece ser herói
mas abrir-te mais o abismo que me dói
nos cardos deste sol de morte viva.

Ser como sou e ver-te como és:
dois bichos de suor com sombra aos pés.
Complicações de luas e saliva.

José Gomes Ferreira

Imagem: Hessam Abrishami

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O tempo

Outubro 21, 2009

Foste o meu passado
e serás o meu futuro
mesmo quando o futuro
já tiver acabado

O princípio e o termo
a luz e o escuro

quando o fim do presente
já tiver terminado…

M. Teresa Horta

Imagem: Hessam Abrishami