Sou voraz
não me apego
ao abrigo da alma
Sou o corpo
o incêndio
só o fogo
me acalma
Maria Teresa Horta
Imagem: Anne Farral Doyle

Sou voraz
não me apego
ao abrigo da alma
Sou o corpo
o incêndio
só o fogo
me acalma
Maria Teresa Horta
Imagem: Anne Farral Doyle


Aquele que o meu coração ama
ergueu-se do meu leito e nele esqueceu
as repetidas promessas de um regresso
em que aos meus olhos ensinaria
a única maneira de esconder
o prenúncio de invisíveis desertos
aquele que o meu coração ama
afogou em noites de leite e mel
o rasto dos oásis que
teciam a sede do desejo no meu peito
e bebeu neles as horas de um destino que
me acenava de muito longe
aquele que o meu coração ama
partiu às cegas sem descobrir
as húmidas palavras que se espalham
à sombra dos ciprestes
contando os minutos que faltam
para a vertigem do corpo onde o aguardo
Alice Vieira
Imagem: Faniya Islamova


Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.
Nuno Júdice
Imagem: Giulia Zingali


Chegaste
com a tua tesoura de jardineiro
e começaste a cortar:
umas folhas aqui e ali
uns ramos
que não doeram…
Eu estava desprevenida
quando arrancaste a raiz.
Yvette Centeno
Imagem: Duy Huynh


Teu corpo é Agosto
Tu cheiras a verão
por baixo das veias
Tu cheiras a quente
Tu cheiras à febre
do sangue maduro
Teu ventre de orgia
teu cheiro a sodoma
aroma-mulher
Teu corpo de agosto
tem cheiro a setembro.
Manuela Amaral
Imagem: Nicoletta Tomas Caravia

Não quero viver sem ti
mais nenhum tempo.
Nem sequer um segundo
do teu sono.
Encostar-me toda a ti
eu não invento.
Tu és a minha vida
o tempo todo.
Maria Teresa Horta
Imagem: Kimia Ferdowsi


O ar, amor —
este ar que eu te respiro.
Soares Feitosa
Imagem: Jean Bailly


Jamais eu ficaria quieto
sob o teu olhar;
que muito menos quietos,
no direito de ir e vir,
sobre o teu corpo,
seriam os meus olhos lívidos.
Porque sobre mim,
bastam os sons
dos teus vestidos:
já me desvestem a alma.
Soares Feitosa
Imagem: Gilles Cotelle


Calam-se as palavras
Quando num beijo,
A minha boca, a tua encontra.
Esquecem-se as palavras
Quando num abraço,
O meu corpo, tornas o teu.
Como é simples o silêncio
Dos gestos que trocamos.
Encandescente
Imagem: Nicoletta Tomas Caravia
