Archive for Dezembro, 2013

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Dezembro 31, 2013

São tantos eus que transbordo em ti.

Carlos Eduardo Leal (a publicar)

Arte por Csaba Markus

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Palavras minhas

Dezembro 30, 2013

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Tamen, in TÁBUA DAS MATÉRIAS – POESIA 1956-1991 (Tertúlia, 1991)

Arte de Beatriz Dipp

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Sem pecado

Dezembro 29, 2013

Pequei…
Num momento
Em que perdi o teu olhar
E esqueci-me
Do mar suave
Beijo… sempre.
Pequei…
Sem pecado
Na dor de sentir
Como vela aroma
Que escureceu
No mirrar do caminho.
Pequei…
No cair de um abraço
No rasgar de um dizer
No escrever sem fim
No trovão da quebra
Pequei… apenas… sem pecado!

José Luís Outono, MAR DE SENTIDOS (Ed. Vieira da Silva, 2012)

Arte por Fabiano Millani 

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Última volta

Dezembro 28, 2013

Completo a última volta
dos teus olhos.
Equilibro o teu rosto suave
na seda que desliza.

A minha sede é um círculo
de luz que me entregaram a beber.
O suor da minha saliva é uma estrela
que se espuma no presente.

Não quero imaginar o nada
que serias sem mim…
Eu sem ti sou tudo mais.

Não vou dormir enquanto
não acordar à tua porta.

Cláudio Cordeiro, in UM TUDO NADA ÁGUA (Lua de Marfim, 2012)

Arte por  Emilii Wilk 

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Desejo

Dezembro 27, 2013

Adormeço tropeçando
no desejo
encostada ao teu pescoço

Respirando o teu dormir
vou bebendo devagar
o ácido cheiro do teu corpo.

Maria Teresa Horta, em Poesia Reunida

Arte por  Hesther van Doornum

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vou buscar-te ao fim da tarde

Dezembro 25, 2013

vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim

valter hugo mãe

Arte por Carne Griffiths

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Cabelos

Dezembro 24, 2013

Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer

António Ramos Rosa, in 366 POEMAS QUE FALAM DE AMOR,

escolhidos por Vasco Graça Moura (Quetzal, 3ª Ed., 2009)

Arte por Miguel Avataneo