Archive for the ‘Vasco Gato’ Category

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Se existe uma chave

Julho 6, 2014

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo, eu beijo, eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide,
o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.

Vasco Gato

Arte por Catrin Welz-Stein

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por ti deitei o meu corpo ao mar

Fevereiro 7, 2014

por ti deitei o meu corpo ao mar
sem cuidar que a maré me esquecesse
por ti aprendi como as coisas se tocam
como o trigo entende o vento e a terra
como amanhecem as crianças sobre as mães

por ti dormi no sobressalto dos vales
entre sossegos mudos e noites espessas
por ti toquei a gravidez das nuvens
toquei os filhos semeados no inverno
toquei a mulher que espanta o frio

e imaginei que me ouvisses na distância
que me lembrasses a meio do mês branco
quando nos campos as pétalas escrevem
o teu nome quando a mão anuncia a ternura
que é quando os meus olhos procuram os teus

Vasco Gato, in Um mover de mão, Assírio & Alvim, 2000

Arte por Li Guijun

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Beijo

Setembro 15, 2013

quando te beijo o beijo que tu me beijas

é que a flor envolve a terra que toca a flor

e é só a forma de os meus lábios dizerem que sim

e de os teus lábios dizerem que não

que não houve tempo antes de nós

Vasco Gato, in Um Mover de Mão, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000

imagem: Castaneda

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A púrpura dos dias

Agosto 24, 2013

falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfazer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos.

ao longe, a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
– nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser-se feliz.

Vasco Gato

Imagem: Anya Zinkivskay, 2006

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É um corpo

Agosto 19, 2011

Estão aqui 37 graus.

É um corpo.

E ninguém se aproxima senão para recuar.

Devorar.

Ou ficar.

Vasco Gato

Imagem: Dodot jd

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O teu corpo

Março 13, 2010

O teu corpo transpira o meu ópio.

Não te afastes.

Vasco Gato

Imagem: Duy Huynh

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Na palma da tua mão

Dezembro 6, 2008

e na palma da tua mão

busco ternura

sem contar meses,

anos,dias,

sem saber dizer

se já te chorei

por inteiro

o suficiente

para não voltar

a perder-te

Vasco Gato

Arte de Carole Jeulin